Não confuda amor com racismo em relacionamentos interraciais.

Passou o dia dos namorados, então vamos lá para as problematizações?


Paulo César Grande e Maria Ceiça na novela Por amor.

 

Brincadeiras a parte, parece que o clima do amor e afeto muitas vezes ameniza que nenhum relacionamento é pleno caso não haja uma reflexão em cima dele. Vivemos num contexto que de forma geral se normaliza a ideia que é possível ser maltratado, ofendido, menosprezado e ao mesmo tempo ser amado por uma pessoa, pois faz parte do amor romântico sofrer. É importante então para discutir esses temas trazer exemplos visíveis para que possamos compreender e visualizar como de fato não é nada saudável o que tentam nos vender como modelo afetivo, por isso  para esse texto vou focar em exemplos de algumas novelas e seriados, em que personagens vão ilustrando bem o que quero abordar: a problemática do racismo em relações interraciais.

 

É sabido que no Brasil houve uma política de incentivo a mestiçagem como prática de embranquecimento da população. Contudo, também deveria ser fato para todos que a mestiçagem que nos é vendida como exemplo da nossa democracia racial, pois supostamente vivemos em harmonia com identidades distintas, esconde uma série de violências sistêmicas e pessoais.

 

No caso das violências pessoais, estar numa relação interracial num país que se ausenta na maioria dos casos de uma discussão séria sobre racismo, pode significar estar numa posição de eterna autodefesa de abusos banalizados. Não estou dizendo que toda relação interracial é abusiva ou nociva, mas que existe essa possibilidade por inúmeros fatores e um dos principais deles é a questão racial.

 

Então no que tange às relações interraciais a mídia de massa, no caso as novelas, naturaliza de forma medíocre que uma pessoa que te ama pode ser racista com você e que isso “faz parte” da sua relação. Por exemplo, em 2004 a Rede Globo anunciou sua primeira novela com uma protagonista negra estrelada por Taís Araújo, Preta era uma personagem que se envolvia com Paco (Reynaldo Gianecchini) um homem branco e rico, e que devido esse relacionamento sofria com uma série de armações e desencontros. Tudo para “ter o final feliz” ao lado de seu par romântico, superando as diferenças de classe, raça e o próprio tempo, pois o “amor” sempre vence, não é mesmo? Acontece que a trama se pautava em vários momentos em que Preta se via sendo violentada verbalmente por sua identidade racial, numa delas o próprio Paco se passando por seu irmão Apolo diz para Preta que nunca sentiria atração por ela pois era uma mulher negra.

 

O que me impressiona em rever essas cenas de mais de dez anos atrás é que foram feitas e mostradas dentro de um discurso poético e romântico no qual essas agressões são tidas como violências que se comete em nome do amor. Esse é o discurso de várias novelas e o da vida real, sabemos que o enredo do abuso físico e psicológico sempre nos foi vendido como sinal de “amor romântico”, contudo em casos de mulheres negras em relacionamentos interraciais essas narrativas conseguem ir mais fundo na problemática da violação de gênero somando o próprio racismo como instrumento da construção do abuso.

 

Comecei falando de Preta, contudo esse texto veio a minha cabeça dado o teor da novela Por Amor, que está sendo reprisada no Vale a Pena Ver de Novo, nela consta a história da personagem Márcia Maria de Jesus interpretada pela atriz Maria Ceiça. Ela é um perfeito exemplo de vítima numa relação abusiva racista romantizada.

 

Vídeo: https://globoplay.globo.com/v/7594893/

 

Segundo o próprio site da Memória Globo, Márcia Maria de Jesus (Maria Ceiça) é uma artista plástica, negra, bonita e lutadora. Ela ama Wilson (Paulo César Grande) e começa a novela junto dele, contudo questiona permanentemente seu preconceito racial e sua violência. Quando começa a novela, ela está grávida e vai ter uma filha contra a vontade do seu companheiro. Esse basicamente é o enredo dessa personagem que infelizmente sofre uma série de violências físicas do parceiro um homem branco, por estar grávida e ele temer que nasça uma criança negra. Seu drama é todo racial, nascido do incômodo com a identidade racial dela e de sua filha, suas escolhas, talento e buscas são totalmente esquecidos para que o enredo do racismo “superado” com amor se concretize.

 

A pergunta que me faço vendo essa narrativa é: Por que alguém que não suportaria ter um filho negro, se relaciona com uma pessoa negra?

 

Ao pensar sobre isso lembro de conversas com uma série de pessoas que em relacionamentos afetivos percebem esse incômodo com seus traços, cor, origem e estética, vindo de seus cônjuges. Mesmo assim continuam nas relações acreditando que isso faz parte. E não, não faz. Se seu parceiro te menospreza de alguma forma ele faz isso para te violentar, te diminuir e controlar, logo isso não é amor. Não pode e nem deveria ser confundido com. Mas sabemos que se existe alguns textos dizendo isso, existem umas série de narrativas da grande mídia endossando racismo, machismo, violências, classismos, como sendo fatores naturais de uma relação.

 

O que já começa absurdo no caso de Márcia em Por Amor, vai aos poucos se tornando ainda mais depois de uma violência física sofrida pela personagem ainda grávida que leva ela a se separar do parceiro. Acabando assim, por ela tendo sua filha solitária já fora desse relacionamento violento e racista. O que poderia ser visto como o ponto de partida para questionamento do abandono paterno, da violência racial e gênero, se resolve assim que a criança nasce branca, mesmo com sua mãe. O que é comentado por uma série de pessoas em tom de alegria, surpresa e até mesmo sorte ao longo da novela. Chegamos ao absurdo de em um capítulo a personagem Márcia ser levada a um médico para saber se é normal sua filha ser branca, e esse sugerir que ela procure um geneticista para fazer um exame genético em sua filha branca. Como tudo que é absurdo pode piorar na ficção, o ex racista, agressor físico, machista Wilson após essa descoberta do nascimento de sua filha branca, passa a tentar uma aproximação com sua ex parceira. O fim da novela é a consolidação que atos racistas e até mesmo violência doméstica são tidos como detalhes, pois os dois de se casam e vivem felizes “para sempre” como é possível ver aqui:

http://globotv.globo.com/rede-globo/memoria-globo/v/por-amor-wilson-e-marcia-se-casam/7571770/

 

É profundamente nociva essa história! Fiquei impactada a ponto de escrever sobre. O enredo me chocou agudamente, podemos entender que se trata de uma novela antiga logo não nos cabe uma análise anacrônica, só que 1997 não é tão longe assim. Além disso, na atual novela das 19h  “Verão 90” também é possível ver uma personagem negra sendo traída, menosprezada pela família racista do parceiro, sendo vítima de machismo e racismo, para evidentemente num final Dandara e Quinzinho ficarem juntos e superarem tudo.

 

Podemos até mesmo pensar em narrativas internacionais recentes, em Scandal vemos uma Olivia Pope brilhante, forte, destemida e com um foco em seu trabalho, aceitando uma série de violências racistas e machistas em nome de um amor em que é posta no lugar de coadjuvante, promíscua e traidora.  Vindo a ser tratada em um dos episódios como mero objeto sexual de um homem branco que não só é privilegiado, é segundo a trama o presidente dos Estados Unidos, que diz vigiá-la em nome do amor, enquanto continua ofendendo ela sem parar ao longo do seriado.

 

Olhando criticamente para essa série, mesmo sendo escrita por Shonda Rhimes, ela me incomoda de tantas formas. O relacionamento não é saudável por vários motivos, sendo tratado como mero detalhe as relações de poder, gênero e raça. O fato de Olívia ser negra é visto como um pormenor, como se estivessemos de fato num contexto pós racial, mas é sabido que a falta de coragem em assumir uma relação com ela, não é só sobre não querer ser visto como o presidente que se separou em pleno mandado, e sim com a sua cor, sua identidade perante as ideias partidárias dele e seus eleitores. O engraçado é que isso não acontece pela primeira vez numa obra da turma da Shonda Rhimes, em How to Get Away with Murder, Annalise Keating é uma mulher firme aceitando violências dentro de uma relação interracial em que o racismo é usado quando necessário para violentar e diminuir essa mulher nos primeiros capítulos da primeira temporada. Nessa obra é possível ver uma certa contestação dessa relação, algo que nas outras aqui citadas não acontece.

 

Mas voltando para Por Amor, o que mais me impressiona é que na atualidade enredos como esses continuem sendo vistos com olhos de naturalidade, tanto que ao procurar textos sobre essa história não encontrei nada criticando. Se já tem veículos com foco feminino ou feminista debatendo os comportamentos de outros personagens da mesma narrativa, o racismo e violência física que Márcia sofre passa batido até para aqueles que olham criticamente a novela Por Amor. Assusta demais, pois assim como acho que essa relação não está tão longe de ser uma realidade para muitos negros e negras em relacionamentos, também não ignoro que o próprio fato disso acontecer com uma personagem negra e não ser ponto de reflexões, mostra quanto estamos condicionados a tratar como genuíno ver uma mulher negra grávida sendo agredida por ser negra. Me choca, assusta e apavora, que um homem branco tenha escrito esse enredo, assim como o de “Da Cor do Pecado”, pois de alguma forma fica nítido que o racismo ele é perceptível para aqueles que não o sofrem, entretanto ainda é visto como um mero detalhe capaz de ser superado com um casamento ou uns beijos de “amor”. Nós negros não podemos cair nessa fantasia de aceitar o racismo vindo daqueles dizem nos amar.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.