Não existe bom senso nesse país, nem quando é Carnaval.

 

Recentemente estava conversando com meu parceiro sobre pular ou não carnaval numa série de bloquinhos que ganham a cidade, então percebi como venho cada vez mais evitando estar nesses espaços me sentindo até desanimada só em pensar nessa possibilidade. Quando cheguei em São Paulo, eu tinha muita curiosidade sobre a cidade e queria experimentar um pouco de tudo, evidentemente o carnaval faz parte disso. Então, em 2017 eu fui num bloco tradicional tido como progressista, não citarei o nome, contudo em qualquer um desses blocos é possível ver situações parecidas com a que vou descrever. Escolhi esse pois além de ser próximo da minha casa, achei que eu sendo uma mulher de esquerda não ficaria desconfortável nesse ambiente dada a conjuntura política da época. Eis que…

 

Assim que cheguei, me deparei com uma mulher vestindo uma fantasia que simulava uma “mulher bomba islâmica”. De verdade, eu nunca me senti tão constrangida pela falta de noção e empatia como vendo aquela “representação” sendo alvo de risos em meio a uma festa de rua, sequer sei relatar sem me sentir incomodada. Era uma mulher branca vestida de preto, com lenço na cabeça preto, simulando um hijab, e um cinto cheio de granadas de plástico. Foi tão constrangedor, surreal e violento, ainda mais numa cidade que vem recebendo uma série de imigrantes com culturas, fés e hábitos distintos, eu só ficava imaginando como seria para alguém que segue o islamismo se deparar com tal representação e associação preconceituosa? Percebi que a  população engajada do país adora pular carnaval e dizer que está tomando as ruas, em 2017 gritavam sem medo o #ForaTemer e hoje o #EleNão, mostrando que mesmo no meio da folia são engajados e pensam nas questões políticas sociais desse país.

 

Contudo essa turma adora usar termos como empatia e fazer textos que mostram como são humanos que pensam nos outros, porém ali ninguém aparentava estar incomodado com essa fantasia, tanto quanto estava em mostrar seu engajamento coletivo em meio a gritos políticos.

 

Pior, assim que digitei no google: fantasia homem bomba. Encontrei uma série de pessoas fazendo uso e confeccionando em diversas ocasiões a fatídica fantasia, é apenas uma brincadeira não é mesmo? Vamos rir e nos divertir. Só que não! Racismo, xenofobia, islamofobia e tantos outros preconceitos, não dão trégua em nenhum momento, e parece que no carnaval isso não é diferente.

Carnaval em 2016 em Quixada, link: https://bit.ly/20AILDR

E desde então eu venho me perguntando:  O Carnaval que ganha as ruas do Brasil, tem graça para quem?

 

Já vivenciei situações de muito assédio no Carnaval, e existe uma forte campanha que inclui até algumas grandes marcas patrocinadoras da festa, em tentar reverter essa lógica de que mulheres ao irem para as ruas fantasiadas estão naturalmente consentindo algo. Entretanto no quesito racismo, xenofobia e apropriação cultural, ninguém toca nesse tema ainda com uma campanha massiva. Mais do que isso, os organizadores de blocos mesmo alguns se dizendo apoiadores da luta antirracista e preconceitos diversos não alertam para tais condutas. Tudo é totalmente naturalizado em nome de uma festa que é supostamente para todos.

 

Então talvez o carnaval esteja se tornando mais convidativo para pessoas brancas em geral, mas não para mim, uma mulher negra crítica ao racismo e xenofobia. Afinal, essas pessoas chegam a escrever seus textos gigantescos para dizer que quando nos incomodamos com blackface, redface, ou até com os absurdos de fazer de uma situação de violência a sua fantasia de carnaval, estamos ignorando o sentido da festa e das suas roupas que deveriam “chocar”. É impressionante como o “choque” dos ditos “neutros” se dá em cima daqueles que são minorias pela negação de seus direitos e até mesmo de existência. Mesmo que o bloco das Domésticas de Luxo tenha mudado suas condutas e fantasias racistas, deixando de lado suas roupas pretas, cabelos black e o black face como bandeira. Esse ano, que começou fazem apenas dois meses, eu já tive que me deparar com um grupo de humoristas insinuando que Iemanjá faria um boquete e com uma festa na qual pessoas negras eram puramente e somente cenografia enquanto brancos festejavam e eram servidos.

 

Então, em qual momento eu posso parar e não me deparar com uma conduta preconceituosa no Brasil?

 

Seja assistindo uma novela, andando nas ruas, lendo um livrinho e até mesmo num bloquinho de carnaval, eu enquanto negra sou de alguma forma racialmente atacada e lido com isso diariamente, inclusive ignorando os fatores psicológicos de como todas essas condutas me afetam. Nesse bloco vi inúmeros homens com peruca crespa, vi vários vestidos de “índio”, alguns vestidos de asiáticos, uma criança com roupa preta e cabelo afro (seria um mini black face?), e por fim um vestido de judeu. Se esse é o progressista brasileiro, eu realmente não sei se sou uma, pois o que difere eles de conservadores são as lantejoulas e retórica supostamente inclusiva. Fora isso, é absurdamente impressionante como para muitos todos nós que fugimos do dito padrão somos dignos de virar fantasia, reduzindo nossa humanidade e cultura a meros acessórios, piadas e fazendo uso de nossas características para zombaria ou cenografia. Somos coisas, não pessoas, e a todo momento isso vem sendo reforçado.

 

Porém mesmo diante de tais coisas absurdas, nada me chocou mais que a “mulher bomba”, sendo que atualmente inúmeras mulheres são sequestradas, estupradas, vendidas e submetidas a coisas que não querem como se tornarem terroristas, por conta de guerras civis que atingem países e devastam culturas. Zombar isso no carnaval e achar engraçado foi demais para mim. Vindo de uma parcela da população que muitas vezes se julga politicamente superior, e que adora clamar por empatia sempre que é questionada. Cansei, de tentar me “encaixar” e fingir que não sou atingida por homens brancos vestindo perucas que são como meu cabelo todo os dias do ano. Detesto fingir que estamos do mesmo lado. Não tem como estarmos do mesmo lado da “luta” se eu sou fantasia e outros se enxergam como seres humanos neutros e completos. Para esquerda que reclama até mesmo da Globeleza não estar mais nua dançando na sua TV e acha que isso é sinal de conservadorismo, ignorando as representações de mulheres negras numa sociedade racista, tudo é chato! Já que tudo “é passível” de problematização, eu realmente só queria deixar o meu desgosto e ausência. Não dá para ignorar e tampouco ser didático, nós merecemos paz das condutas racistas. Então não, obrigada carnaval 2019, não são será dessa vez. Enquanto não houver uma conscientização série sobre apropriação cultural, xenofobia e racismo, nunca mais. Já falamos tanto disso, tanto! A gente precisa saber quais são nossos limites, enquanto a sociedade não limita os racistas de agirem como tal.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.