Narrativas: desejo para mulheres brancas e solidão para mulheres negras

Ela é uma das poucas loiras naturais e/ou menina com olhos claros na escola. Daquelas que não usa maquiagem pois nunca ouviu, mesmo em um mundo de padrões de beleza e capas de revistas femininas, que precisava. Claro que quando ela prende o cabelo de qualquer jeito, ela continua linda, pois é toda predisposta a uma beleza natural. Ela é magra e alta e a culpa não é dela – é pura genética!

 

Mas não é só a aparência que atrai. Ela é também muito determinada no que faz, muito embora seja adoravelmente desajeitada e, verdadeiramente ruim no trabalho. E é aí que entra o herói masculino: ele vai apoiá-la como ninguém apoiou. Vai incentivá-la mesmo quando os planos da garota são egoístas e idolatrá-la por qualquer esforço que ela demonstre. Se esse personagem masculino for Joe (Penn Badgley), de “You”, série original da Netflix, ele até mataria por ela.

 

Nesse mini exercício de criação de personagem, eu poderia mesmo estar falando de Beck (Elizabeth Lail), a vítima de Joe na série. Mas a descrição caberia a muitas outras personagens espalhadas pela televisão e o cinema.

 

Como se já não bastasse o fato de que as histórias de obsessão sejam romantizadas em Hollywood, ainda se consegue adicionar um padrão de beleza nisso. Culturalmente, as negras americanas chamam de basic bitch, a colunista especialista em cinema e negritude do Refinery9, Kathleen Newman-Bremang, chama de “mulheres brancas medíocres”. Mas, antes que eu fosse acusada de “racismo reverso” por esse post, encontrei uma definição mais “gentil”.

 

Para Sady Doyle, autora de livro “Trainwreck: The Women We Love to Hate, Mock, and Fear . . . and Why” (ainda sem tradução no Brasil) mulheres como Beck são as típicas effortless white women, ou “mulheres brancas que não se esforçam”. Elas não precisam se esforçar pois já nasceram com uma aparência que irá facilitar suas vidas. Suas carreiras, suas rotinas de exercícios, de estudos, seus trabalhos voluntários, o cuidado com a família…. Tudo documentado nas redes sociais. Sem nenhum esforço.

 

E não, elas não são perfeitas. Odeio ter que referenciar Joe, mas ele estava certo quando disse que a vida de Beck no Instagram é basicamente uma curadoria que esconde muita escuridão. Mas, novamente, sem esforço, ela conquista a simpatia de muitos.

 

Para mim, o mais impressionante de “You” não foi a capacidade de um vilão branco e com histórico de “bom moço” sair impune de múltiplos sequestros, invasões domiciliares e assassinatos, mesmo sem usar luvas em todos os crimes que cometeu. Mas sim, a construção de Beck como um objetivo de desejo para ele e para sua amiga Peach (Shay Mitchell).

 

Beck é a típica menina branca mediana e básica. Ela não tem nada de verdadeiramente misterioso ou interessante em sua personalidade, nem mesmo seus poemas são bons. A narrativa precisou até forçar casos de traição e encontros às cegas (nesse caso, com o próprio pai) para que Joe tivesse o que, de fato, stalkear na garota pois a realidade é que ele não tinha mesmo nenhum motivo para se tornar tão obcecado por ela.

 

E eu digo isso imaginando que, você lendo este texto, sabe que NENHUMA mulher precisa “merecer” a obsessão de um cara. Mas fato é que histórias de obsessão existem, elas partem de um objeto de desejo e elas também ensinam lições – que nem sempre são compreendidas.

 

E eu que, inocentemente, havia achado que a trama de “You” havia sido clara sobre o tamanho da perversão do personagem de Penn Badgley? O ator precisou se pronunciar no Twitter sobre espectadoras que acharam Joe sexy e que queriam ser perseguidas por ele. E isso vem de muitos anos de romantização desse perfil abusivo na TV e no cinema. O próprio Badgley já perseguiu uma “mulher branca sem esforço” em Gossip Girl. Como esquecer da obsessão de Dan Humphrey pela Serena Van der woodsen de Blake Lively?  Ou ainda, a grande simbologia de romance doentio: a paixão de Edward Cullen pela simples Bella Swan.

 

A lista continua até mesmo quando saímos do quadro de obsessão e analisamos simples comédias românticas ou dramas românticos: Rory Gilmore, Marissa Cooper, Joey Potter…  

 

Da obsessão à solidão

 

Analisando histórias de heróis românticos e suas parceiras brancas, é possível encontrar um personagem que normalmente aparece representando brutalmente a realidade. Ela está em “You” também. É a Karen.  

 

Karen era perfeita para Joe. Ele mesmo admitia. Karen era divertida, interessante, forte, determinada e de alguma maneira todas essas características criaram um relacionamento fácil, leve, sem abuso ou stalk. Mas é claro que, sob a ótica de Hollywood, Karen não poderia competir com a adorável simplicidade de Beck.

 

Joe traiu a superinteressante garota negra com a branca básica. Uma situação tão real que até Beyoncé já viu. Ela falou sobre a dificuldade de entender porque, mesmo ela sendo tão incrível – bom, mesmo ela sendo a BEYONCÉ -, ainda foi trocada por uma “Becky do cabelo bom”. Ou seja, até o nome da personagem de “You” consegue ser super básico! Mas, se ela é uma garota branca, isso é o suficiente para defini-la e torná-la desejada.

 

 

Claro que, considerando o monstro que Joe é, sabemos que Karen se livrou de uma grande cilada quando ele finalmente terminou com ela para ficar com Beck. Mas as histórias de muitas outras mulheres negras, na cultura pop ou na vida real, podem até conter um homem realmente apaixonado – por uma mulher branca, é claro.

 

Lembra quando, em “Friends”, Joey deixou a belíssima e inteligentíssima Charlie Weeler (Aisha Tyler) para ficar com a Rachel (Jennifer Aniston)? Claro que, nesse ponto da trama, Rachel já não é tão básica, tendo amadurecido ao longo das temporadas. Além disso, foi Charlie quem terminou com Joey (Matt LeBlanc) para ficar com Ross (David Schwimmer). Mas ainda assim, a exclusão de uma mulher negra parece muito fácil para roteiristas. Foi no mínimo incômodo ver a única personagem negra que se tornou regular saindo da série com sketches completamente sem sentido só para que ela não estivesse lá no fim da temporada, onde Ross e Rachel finalmente ficariam juntos.  

 

Em “The Good Place”, uma versão atual do que seria uma comédia inteligente e inclusiva, a fantástica Simone (Kirby Howell Baptiste), era bonita, além de muito engraçada e tão inteligente quanto Chidi (William Jackson Harper). Por um tempo, eles formaram um casal negro que, além de muito representativo, eram uma combinação perfeita. Até que a Eleanor de Kristen Bell voltou à cena e Simone simplesmente desaparece.

 

Segundo o criador da série Michael Schur, houve um grande cuidado para não recriar um outro padrão de história muito típico de Hollywood: a competição de duas mulheres por causa de um homem. De fato, Chidi, Eleanor e Simone nem chegaram perto de serem considerados um triângulo amoroso, assim como, entre Jason (Manny Jacinto), Janet (D’arcy Carden) e Tahani (Jameela Jamil) também não existe competição.

 

Contudo, Simone foi colocada de volta à narrativa da terceira temporada com muita facilidade quando foi preciso criar um conflito entre Chidi e Eleanor e deixar um suspense para a próxima temporada.

 

Outra comédia considerada inteligente, “Master Of None” não foi muito esperta ao adicionar Sara, interpretada por Clare-Hope Ashitey, como um interesse amoroso muito empolgante, mas que durou apenas um episódio. Já Francesca (Alessandra Mastronardi), a personificação da Manic Pixie Dream Girl, foi central na história de Dev Shah (Aziz Ansari).

 

Histórias de amor como estas colocam as mulheres brancas como objeto de desejo – e, é claro, sem que elas fazem nenhum esforço – e demonstram às mulheres negras que, não importa o quão interessante possam ser, não podem competir com a tal beleza natural de uma branca.  

 

Se analisarmos as histórias da TV brasileira, ainda há um nível que piora a representação da mulher negra: elas costumam ser amantes, e depois trocadas pela mulher branca que geralmente é a mocinha. A mais recente que me vem à cabeça aconteceu na novela “A Lei do Amor”, onde Pedro (Reynaldo Gianecchini) trai Helô (Cláudia Abreu), sua paixão da adolescência, com Laura (Heloisa Jorge). Claro que a personagem  negra foi vista como uma destruidora de lares até que os roteiristas colocassem um “pé na bunda” para que a história voltasse aos trilhos.  

 

Em um mundo que constrói interesses racistas, é até mesmo difícil mostrar às mulheres negras que elas não precisam da aprovação de um homem ou mesmo que não precisam estar em um relacionamento para estarem felizes. Pois muitas nem mesmo têm espaço para relacionamentos.

 

E a solidão da mulher negra não é somente algo a se discutir no campo amoroso. O maior exemplo disso é “Orange Is The New Black”, que, mesmo mostrando histórias de mulheres negras apaixonantes, volta para o ciclo da protagonista Piper. Para começar: será que uma mulher branca deveria ser centro de uma história sobre prisão feminina?

 

A realidade é que a série está chegando a sua conclusão com muitas indicações de que não haverão finais felizes para mulheres negras. O roteiro tem justamente passado a mensagem de que um país racista não facilita mesmo. Contudo, é difícil levar uma mensagem inspiradora da maneira com que as coisas têm ido para elas.

 

Já passou da hora de Hollywood largar esta síndrome de Joe e contar histórias, de preferência felizes, de mulheres negras.

 

Karoline Gomes

Feminista negra interseccional, jornalista de formação e pós-graduanda em Cinema e Linguagem Audiovisual. É fundadora do projeto sobre endometriose e saúde da mulher, EndoMapa e co-diretora do Entreviste um Negro. Passou por veículos como MdeMulher, Finanças Femininas, Modefica, Think Olga e outros, sempre trazendo conteúdo com viés de gênero e raça.