No Brasil da Fake News: Senhor de Engenho é alçado a Herói

As coisas que aconteceram nos últimos meses no Brasil, são sem dúvidas inacreditáveis quando analisadas de um ponto de vista lógico. O que se viu foram pessoas acreditando em “mamadeira de piroca”, ou que crianças seriam retiradas de seus pais pois a pedofilia seria legalizada. Meses depois, de certa forma as pessoas estão vendo a poeira baixar, e é nítido que muitos estão se dando conta que suas escolhas foram feitas no calor do momento, motivadas por uma série de mentiras. Contudo se o termo “Fake News” é contemporâneo, na realidade mentiras banalizadas que viralizam e fazem com que pessoas de fato acreditem em fatos estapafúrdios que negam tudo que conhecemos historicamente, fazem sem dúvidas parte do Brasil.

 

Muitos brasileiros de fato crêem que vivemos num país que o racismo não é uma realidade, já que estamos supostamente numa democracia racial em que todos nós temos as mesmas chances, mesmo que essas pessoas convivam em espaços de nenhuma ou quase nenhuma presença negra. E sobre esse aspecto, por mais que a mestiçagem incentivada pelo Estado por meio da entrada de europeus no país visando clarear nossa população, tenha intensificado isso. A mídia tem um papel importante na manutenção da falsa idéia de Democracia Racial que continua nos assombrando, mesmo com os dados que mostram um jovem negro sendo assassinado pelo Estado a cada 23 minutos.

 

Aminata Diallo, Meu nome é Liberdade

Portanto, se a rede Globo anuncia em seus comerciais a série Meu Nome é Liberdade, visando ter o mesmo sucesso que atingiu com a série Raízes, ambas produções estrangeiras que apontam a crueldade da escravidão e o quão de nenhuma forma ela foi um processo que negros se sentiram confortáveis ou passivos a essa realidade. A mesma emissora que é a maior do país, termina nesta semana uma de suas novelas de sucesso do horário das 19h, atualmente um horário que vem atingindo um grande público, em que sua narrativa principal trata de pessoas que viviam no Brasil colonial e que passaram a viver no Brasil contemporâneo. Por mais insana que seja a justificativa para esse fato, é marcante que os chamados “agregados” desses Senhor e Senhora coloniais, sejam secundários mesmo na contemporaneidade.

 

Anúncio de jornal publicado antes da abolição da escravatura de 13 de maio de 1888.

Mais simbólico ainda, é como a escravidão brasileira é tratada como um processo ameno no qual existia afeto entre escravizados e seus Senhores, não é a primeira e nem última vez dessa narrativa usada nas mídias brasileiras. O grande problema é que a Escravidão que “compram” de subproduções de fora do país, é cruel, violenta, assassina, estupradora, essa realidade que também aconteceu no nosso país segundo os registros, mas que só é interessante de ser tratada com veracidade quando vinda de fora, pois assim se garante uma distância da realidade cruel com a realidade que garante a  manutenção da falsa ideia de Democracia Racial.

 

Na própria definição da emissora para o tal personagem Dom Sabino é dito que ele é um: Empresário vitorioso do Brasil Imperial, é descendente de bandeirantes, um homem íntegro e zeloso. (…)Trata os escravos e os agregados com respeito. É um homem de opinião que preza pelo bem-estar dos seus acima de tudo. Considera-se um fiel súdito da monarquia e sonha com um título da nobreza. Muitas vezes quer fazer justiça com as próprias mãos, especialmente se for para limpar a honra da família.”

 

Em outros contextos essa biografia seria sinal de um homem não louvável, mas parece que mesmo sendo descendente de bandeirantes, logo invasores, violentos e estupradores. Mesmo sendo um senhor que tenha escravizados que sequer sabem ler e escrever, e que fazem tudo para ele. Mesmo assim, ele é admirado pelos personagens da trama e pelo público! Edson Celulari vem sendo tratado com um destaque da trama,seu personagem ganhou episódios que mostravam sua bravura e heroísmo, se esquecendo totalmente do que significava ter escravos no Brasil colonial, e qual o tratamento era dado para essas pessoas. Basicamente a Rede Globo escreveu a história da forma como queria, e claro, fazendo grande parte do público acreditar na possibilidade disso, mais uma vez ela transformou um Senhor de Escravos num herói.

 

Absurdo? No Brasil da atualidade isso não me surpreende e nem me choca mais, parece que é um resumo do nosso cenário político e social: algozes virando heróis com apoio midiático.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.