Novela sobre empoderamento feminino só tem protagonistas brancas, sério?

Vamos lá: escrevo este texto em pleno dia 21 de março, o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial. Essa data, criada pela ONU, tem como referência o Massacre de Sharpeville, que aconteceu em 1960, na África do Sul. Tem, portanto, como proposta marcar a data que 20.000 pessoas fizeram um protesto contra a Lei do Passe, que dentro do sistema do apartheid condicionava que negros andassem com um cartão indicando os locais onde sua presença era permitida, e na ocasião a polícia abriu fogo contra os manifestantes pacíficos matando ao todo 69 pessoas e deixando 186 feridos.

Esse evento é sem dúvida um exemplo de como o apartheid cerceou o direito de negros, promoveu a violência e foi um período marcadamente racista da história do mundo. Assim como a segregação racial de negros norte americanos que se manifestou em vários filmes nas histórias dos bebedouros divididos e fundos de ônibus para negros nos Estados Unidos devido ao sistema Jim Crow, o racismo marcou a humanidade. Porém, só o Brasil acredita que está imune a isso.

No caso nacional, por mais que a gente no Brasil não tenha vivido a segregação declarada, sabemos muito bem que sempre existiu espaços para negros e para brancos neste país, pautados em raça e classe. Tanto que semana passada uma vereadora foi assassinada brutalmente e uma criança foi morta a tiros pela polícia. Essas violências cotidianas indicam muito bem qual o lugar dos negros no Brasil. Essa segregação se manifesta territorialmente nos espaços políticos, de educação e também na representação visual. E sabemos que há anos estamos debatendo o racismo no Brasil, o lugar do negro no país, das mais diversas formas possíveis. ENTRETANTO, essa semana foi ao ar o primeiro capítulo da nova novela global Orgulho e Paixão. Na maior emissora do país a Rede Globo, em que o elenco principal é esse:

 

 

 

Estamos em 2018, e a maior emissora do país está lançando novamente uma novela com elenco de maioria branca, mesmo que fora do país, o filme mais debatido deste mês e provavelmente do ano, seja esse aqui:  

 

 

Digo novamente, pois na sua novelinha medieval a rede Globo nos deu esse elenco e equipe:

 

 

 

E entendo que você pode não assistir novela e achar esse assunto nada a ver com a discussão sobre manifestações racistas como o Apartheid. Entretanto, sabemos muito bem que a Globo é uma concessão pública e que deveria ter o mínimo de responsabilidade social. Ainda assim, visualmente ela representa o Apartheid brasileiro da pseudo democracia racial em que negros não aparecem nas telas de nossas tv se não forem em noticiários policiais ou em papéis secundários cheios de estereótipos. Não custa ressaltarmos que a representação visual e midiática moldam o imaginário da população como um todo. Ou seja, em  2018 o indivíduo negro é ainda visto como o OUTRO, o incompleto, aquele que desconhecido, o forasteiro, mesmo que diariamente nós, negros, circulamos por esse país e sejamos a maioria. Nossa Lei do Passe ainda é vigente.

Por isso, ainda estamos discutindo esse assunto: temos duas novelas com mais de 95% de brancos no elenco. E isso acontece há anos com naturalidade no país que “ama negros”… Contudo, como somos constantemente surpreendidos, a nova produção “Orgulho e Paixão” vem sendo vendida como uma obra que vai debater o chamado empoderamento feminino, sendo então uma proposta supostamente inovadora:

E só por isso estou escrevendo isso, afinal: Não é possível!

 

 

A mocinha da atual novela, que é inspirada na obra de Jane Austen, é interpretada por Nathalia Dill. Nesse vídeo do link acima a atriz cita a Marielle Franco e diz: “essas causas começaram ali”. Penso realmente se a história de mulheres negras começou ali na narrativa de mulheres da aristocracia, muitas delas ligadas aos barões de café, ou das mulheres negras que ficavam em segundo plano a ponto de sequer protagonizarem essa novela ou serem lembradas nas histórias desse período e desse país como um todo?

Quer fazer a novela só com brancos: Ok. Afinal, vocês sempre fizeram isso. Agora, dada toda a contribuição de mulheres negras para a luta de mulheres, para o feminismo e sendo nós a maioria desse país, parece que alguma coisa não está batendo numa lógica de empoderamento feminino que exclui negras ou qualquer outra mulher que não seja a branca. De quais mulheres estamos falando? Quais mulheres, inclusive, estão adquirindo capital financeiro e simbólico se posicionamento como feminista? Que tipo de “feminismo” está sendo “vendido” e como isso nos impacta?

Veja bem, por mais que possam dizer que “naquela época não tinha negras na sociedade sendo reconhecidas”. “Orgulho e Preconceito” é uma novela que se passa no século XX, historicamente existe material para se construir até mesmo nesse período personagens negras representativas baseados em fatos reais para além da figura do empregado. Não obstante, a licença poética que a rede Globo empregou na novela “Deus Salve o Rei” para incluir uma publicidade de produtos cosméticos atuais poderia ser empregada para criar núcleos com personagens que são interpretados por negros com naturalidade!

Poderiam em “Deus Salve o Rei” um reino inteiro com personagens sendo interpretados por negros, assim como seria possível em “Orgulho e Paixão” metade do elenco ser negro. Se as novelas se permitem por meio de seus roteiristas fantasiar sobre mulheres com poderes mágicos, qual o problema em ter negros nesse mundo fora da realidade? Pior do que isso, porque se pressupõe que para se ter negros é necessário recriar os papéis. Como se tivessem que escrever personagens para negros, e não apenas personagens que qualquer ator pudesse interpretar.

Sinceramente, o que mais me decepciona (mas não me surpreende) é ver brancas feministas apoiando projetos como o dessa novela, que repete o erro do filme Sufragistas. Precisamos deixar muito claro para mulheres brancas que se elas não se comprometem em cobrar a presença de negros, não nos servem enquanto parceiras das nossas lutas.

 

 

Octavia Spencer e Jessica Chastain sobre salários

Você precisa ouvir Octavia Spencer falando sobre Jessica Chastain e a diferença de salário entre mulheres negras e brancas:

Posted by Papel Pop on Friday, January 26, 2018

 

Sinceramente, não dá para ficar comemorando nas redes sociais uma novela que se pretende atual nas suas temáticas, mas que se “esqueceu” de que não há nada mais atual e contemporâneo que não negar a história negra do país e incluir negros em papéis diversos, e não só naqueles escritos para “pessoas negras”. Atores negros ainda são extremamente limitados e parece que atores brancos brasileiros não estão dispostos a se comprometer de fato para que isso mude, como alguns estão fora do país:

 

 

Já nos foi vendido um suposto empoderamento feminino, num filme que retratou o sufrágio apenas com feministas brancas e mulheres brancas no protagonismo, que apagou totalmente a luta de negras e asiáticas. Já se sabe que a luta de mulheres socialistas é totalmente apagada e a luta de burguesas exaltada. Mas, em 2018, após todos os debates e ascensão do feminismo negro na mídia, se propor a falar de gênero sem protagonismo de negras é aceitável?

Na novela das seis anterior, “Tempo de Amar”, a personagem Balbina era filha de escravos e era a empregada “da família” que foi abusada pelo patrão, mas que teve final feliz quando esse patrão registrou o filho de ambos. Até agora não consigo cogitar o quão horrendo é a lógica de transformar uma relação de abuso em um final feliz, em que o sujeito branco é colocado no posto do benfeitor. Se esse país fosse sério, seria inadmissível romantizar estupro de negras por patrões. Mas esse país não é sério, e continua naturalizando as lógicas abusivas que impactam principalmente na base da pirâmide que são as mulheres negras.

Evidentemente, por mais que muitos digam que se preocupam “conosco”, as negras, em momentos específicos, não é isso que o Brasil e mesmo as brasileiras feministas estão mostrando. Aparentemente, por mais que elas se choquem com os abusos e violências cotidianas que nos impactam recorrentemente, continuam leiloando nossa integridade pelo próprio bem-estar.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.