O delicado universo feminino em “As Horas”, de Michael Cunningham

Michael Cunningham escreveu uma das obras mais sensíveis e delicadas sobre o universo feminino, o livro entitulado “As Horas”. Este livro foi adaptado para o cinema em um filme com o mesmo título, com Nicole Kidman, Meryl Streep e Julianne Moore nos papéis principais. Três incríveis atrizes para interpretar três adoráveis mulheres.

Não pretendo fazer aqui um resumo da obra, pois tal conteúdo pode ser encontrado facilmente na internet. A intenção é debater os modelos femininos expostos por Cunningham e, para isso, preciso fazer uma breve digressão sobre cada uma das personagens.

A primeira delas é Virgínia Woolf (minha musa), interpretada por Nicole Kidman na adaptação para o cinema. Cunningham imaginou como teria sido seu último dia de vida, em Oxford, no final do século 19, quando Woolf cometeu suicídio. Neste dia, ela se encontra com sua irmã, Vanessa, e então o primeiro paradoxo aparece.

Woolf era independente e postulava sobre a liberdade das mulheres. Por isso, era uma das poucas mulheres da época que trabalhava e seu trabalho era escrever. Ambos – trabalhar e escrever – não eram bem vistos pela sociedade e logo estereotiparam Woolf como “depressiva”. Seu comportamento angustiado, crítico e rebelde tentou ser reprimido pelo seu marido através de psiquiatras e remédios, o que culminou com seu suicídio.

Na outra ponta, há sua irmã, Vanessa, representando o ideal de mulher da época: casada, três filhos, possui uma vida agitada em Londres, a casa dela está sempre cheia de convidados de renome, enquanto seu marido trabalha e sustenta a família. O contraponto à Woolf vem com a alta energia e comunicação de Vanessa, em oposição à introspecção de Woolf que, por sua vez, sente que espera-se dela que seja mais parecida com sua irmã.

“Como é que se lembra de ser, como é que consegue, todos os dias e todas as horas, ser tão exatamente a mesma?”, pensa Woolf em determinado momento.

Vanessa é importante no enredo exatamente porque destaca como Woolf era “desajustada” aos princípios da época. E, embora Woolf sinta que deveria seguir aquele modelo de mulher, ela não o faz, porque sabe que sua essência é diferente. Seu suicídio traz uma conotação trágica de autoafirmação, como quem diz: prefiro morrer a ser o que não sou.

Outro núcleo feminino importante é o da personagem Laura Brown, interpretada por Julianne Moore. Laura é uma dona de casa nos anos 50, tem um filho pequeno e marido. Ela se sente na obrigação de cuidar do seu marido, pois ele foi soldado na Guerra e sofreu bastante. No entanto, ela não quer cuidar da casa, nem do filho, pois ela começou a se questionar se aquele era o papel que ela queria desempenhar pelo resto da vida. O questionamento começa porque ela lê “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf. Ela começa a refletir sobre suas escolhas ao longo da vida e, grávida do segundo filho, percebe que não quer ser mãe nem esposa.

Paralelo a isso, ela tem um breve affair com sua vizinha, Kitty. Kitty não pode ter filhos, tem uma personalidade intensa e sensual e é um contraponto à Laura.

Minha sensação é de que Laura continuou o raciocínio de Woolf, no enredo. Seus questionamentos são relacionados à identidade e ela se pergunta “Afinal, o que é ser uma mulher?”.

Por fim, o terceiro núcleo se passa nos anos 2000, com Clarisse Vaughn, interpretada por Meryl Streep. Clarisse é editora e escritora em Nova York e gosta de receber pessoas em sua casa e oferecer festas, exatamente como a personagem Mrs. Dalloway. Aliás, este é seu apelido. Ao deparar-se com a doença terminal de seu melhor amigo, toda a angústia e melancolia que Clarisse escondia atrás das festas vem à tona, e ela começa a remoer o passado. Questiona suas escolhas e pensa, constantemente, se sua vida deveria ter seguido outros rumos. Mas, diferente de Laura, Clarisse pensa muito sobre a morte e o fim das oportunidades.

Ela é casada com Sally. uma mulher prática e agitada. Aqui, mais uma vez, a personagem coadjuvante tem a função de ressaltar a principal, mostrando ao leitor os opostos e as diferenças. Sally funciona como um motor, que empurra Clarisse a sair de suas ruminações e tristezas, fazendo-a seguir em frente.

 

Todas estas mulheres tem representatividade até os dias de hoje e são bastante atuais. Acho importante que as mulheres se sintam no direito (eu diria mais: no dever!) de questionar os papéis que lhes são impostos ao longo da vida. Se Laura não teve coragem de assumir seu affair com Kitty, quase meio século depois temos uma Clarisse casada com outra mulher, e acredito que este seja um dos pontos mais relevantes do livro: podemos e devemos evoluir nossas identidades. E a sociedade jamais estará pronta para estas mudanças de paradigmas, pois somos nós, cada Laura e cada Clarisse, cada Kitty e cada Sally, que temos a obrigação de promover as pequenas alterações no curso das coisas.

Devemos isso a nós mesmas, às mulheres do futuro e à minha musa Virgínia Woolf.