O feminismo branco precisa parar de culpar mulheres negras por abusos de homens brancos

Impressionante como as histórias se repetem, tanto as de abuso sexual cometidas por homens, quanto de pessoas brancas culpabilizando pessoas negras pelas ações desses homens. Mesmo que essas pessoas negras não saibam nada sobre os casos e/ou não tenham sido cúmplices nas suas ações, recai sobre elas geralmente uma culpa que difere, e muito, da cobrança que é feita com alguns agentes da opressão que circulam livremente, sendo às vezes alçados ao lugar de ídolo, até mesmo de feministas.

Afinal, quantas feministas brancas não possuem suas fotos ao lado de Caetano Veloso, abraçadas e com suas legendas afetivas? O que seria isso de cobrar mulheres negras por ações que não são delas, senão o fator raça sendo determinante para cobrarmos ou não o posicionamento e ação de alguém?

No ano de 2016, nas redes sociais surgiram denúncias sobre homens que colaboram no álbum de Elza Soares, Mulher do Fim do Mundo. A agente das denúncias questionava se de fato esse era um álbum feminista, já que alguns dos colaboradores eram machistas. O que foi ignorado é que Elza Soares não possuía total controle sobre isso, afinal, diferente do quanto sua equipe recebe ou não por um trabalho, as atitudes machistas não se tornam parte de um orçamento de fácil acesso, que todo mundo pode analisar e tomar uma atitude diante disso. Nós não sabemos da vida dos homens que trabalham com a gente, mesmo eu acreditando que se soubéssemos não teríamos envolvimento de qualquer tipo, com quase nenhum deles.

Mas a vida não pode ser guiada em cima de suposições, uma coisa é após denúncias ignorar o fato, outra é ser acusada nas entrelinhas de negligência por algo que você não sabia, mas que “deveria saber”. Como? Essa é a minha pergunta, desde quando ser negra e feminista é o mesmo que ser vidente?

De fato, as pessoas esperam que mulheres, em especial negras, tenham uma capacidade quase que mágica para perceber essas atitudes masculinas nocivas que homens cometem com outras mulheres, em especial as brancas, pois como sempre parece que tudo que é sobre elas nós precisamos fazer algo, diferentemente do oposto, já que muitas tendem a negligenciar debates raciais, ignorando com isso nossa existência.

Veja bem, não nego que expor esses homens é importante, eu só não entendo como isso se torna sobre mulheres negras que tiveram algum contato ou vínculo com eles ao longo da vida.

Eu mesma me vi numa situação desse tipo. Em determinado momento da minha vida estava me relacionando com uma pessoa e no começo da relação essa pessoa recebia uma série de ligações e mensagens da sua ex, no caso uma mulher negra. Eu não tinha acesso a essas mensagens, que eram apenas destinadas à pessoa e não a mim, e mesmo perguntando do que se tratava eu recebia uma resposta que não era a verdadeira. Meses depois, a pessoa em questão me disse que as mensagens eram destinadas a mim, na qual sua ex questionava meu feminismo por estar com ele, e no caso ele ter tido ações com ela machistas e agressivas.

Fiquei muito perplexa, a relação parou de existir. Mas o tom da fala, ao mesmo tempo de denúncia de alguma forma me culpabilizava por algo que eu sequer poderia saber e agir sobre, era como se estar com ele me fizesse menos feminista, mesmo que eu não soubesse o que ele tinha feito. Nós somos feministas, nós não somos seres mágicos.

 

Nós somos pessoas, esse é o ponto que muitos se esquecem sobre mulheres negras, nos colocam um peso, uma responsabilidade, que foge dos parâmetros humanos, e nos jogam numa situação de desumanização novamente, como se estruturalmente isso já não fosse um fato dado pelo racismo.

 

Por isso, se em 2016 Djamila Ribeiro teve que escrever um texto para dizer que não fazia sentido culpabilizar Elza Soares pela atitude dos homens que trabalharam com ela, eu realmente fico chocada em ter, dois anos depois, que dizer que Oprah Winfrey não pode ser culpabilizada e cobrada pelas ações de João de Deus, por ter feito seu trabalho como apresentadora e entrevistado ele em seu programa. Programa esse que era seu enquanto apresentadora, mas que tinha uma equipe gigantesca responsável pela produção que não está sendo cobrada e culpabilizada.

“O João de Deus só se transformou nesse mito por causa da Oprah. Antes da chegada dela no Brasil, ele não tinha um esquema tão organizado de guias turísticos que trazia grupos de estrangeiros a Abadiânia. A partir da Oprah, outras celebridades começaram a conhecer o João de Deus.”

Esse é o tipo de fala que explica porque muitas de nós negras precisamos nos reafirmar como feministas negras e nos distanciar em determinados momentos de feministas brancas. Pois não é possível! Se ignora uma série de famosos BRANCOS que se associaram a João de Deus, a uma região inteira se beneficiando economicamente de suas ações, do fato de Oprah entrevistá-lo em 2012 e os abusos denunciados já existirem desde os anos 90, pois suas ações já mobilizaram doentes a sua procura mesmo antes da entrevista.

Dos inúmeros casos semelhantes a esse, que não precisam de uma Oprah para acontecerem. Tudo pode ser ignorado e de uma forma estranha pode se culpar nas entrelinhas uma mulher negra, por ações que dizem respeito a um homem e branco, que não possui nenhuma relação afetiva, sexual, profissional, familiar com ela. Simplesmente, porque ela estava fazendo seu trabalho.

 

 

As ações são sobre João de Deus, ele que lance notas, ele que seja cobrado, ele que se posicione, ele que aja, ele que seja preso, ele e outros jornalistas homens brancos no mundo, podem começar a se responsabilizar pelas condutas machistas de homens, e não só uma apresentadora que ao fazer seu trabalho agora é colocada no lugar de algoz.

Me parece que Oprah é mais culpabilizada por ser uma negra de sucesso, do que por ter entrevistado ele em si. Segundo os inúmeros relatos, João de Deus é um predador sexual que fere toda e qualquer mulher que ele achar que deve. Se todos os fatos forem comprovados, será o fim de mais um líder espiritual que usava da fé de mulheres vulneráveis para cometer seus abusos.

Existem muitas coisas a se analisar, denúncias que foram feitas anos atrás e que não “deram em nada”, muitas mulheres a serem ouvidas, existem muitos fatores e interesses em jogo e Oprah ter apagado a entrevista em questão das suas redes, já mostra que ela não quer ser associada a um homem com essa conduta. Mas o que ela precisa fazer além disso? Essa é uma pergunta que eu faço todo dia: o que preciso fazer para ser “perdoada” por erros que sequer fui eu que cometi?

Para muitos, parece que só a volta ao “tronco” é uma punição digna de redimir essas “negrinhas”, mesmo que se diga que não é sobre raça, claro que é, a culpa que colocam sobre nós, sempre será sobre raça.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.