O Ódio também é uma cultura

Quando falamos a palavra CULTURA sempre associamos a produção teatral, tv, cinema, livros, danças, comidas. Uma série de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes, referentes a um grupo social. A questão é que esquecemos muitas vezes de compreender que cultura também define padrões de ações, comportamentos e costumes opressores. Pensando assim, os padrões sociais podem ser violentos e agressivos, sendo naturalizados a partir de uma perspectiva que por serem culturais, não deveríamos pedir o seu fim ou criticá-los. Existe então uma Cultura do Ódio, uma série de reproduções de modelos, narrativas e manifestações, que propagam a aversão, opressões, violências, abusos, etc. Cultura essa que vem sendo alimentada e ganhando novos símbolos constantemente, enquanto não a debatemos seriamente não ignorando o quão problemático é sustentar determinadas narrativas e condutas.

 

No Brasil da atualidade, dado o desmantelamento cultural que vem sendo pregado pelo atual governo, a única CULTURA que vem sendo defendida e protegida pelo Executivo do nosso país, é a do ÓDIO. No entanto isso não é de hoje, temos muitos exemplos que abasteceram a Cultura do Ódio na nossa mídia nacional, sendo propagados diariamentes na casa da grande maioria dos brasileiros. Programas como o do Datena na TV, são um bom exemplo, de como a barbárie, violência e a ideia do “olho por olho”, são vendidos como mero entretenimento. No passado, o Pânico na TV vendia misoginia, racismo, elitismo, violência física e bullying, como sendo tudo que o jovem brasileiro precisava ver com seus 15/16 anos. Só que indo mais longe, quando ainda éramos crianças, fomos alimentados com narrativas de competição, uso da força física e intolerância, Power Rangers é um bom exemplo disso. A raiva e gestos violentos com a mão, eram comuns nos meus primos que cresceram vendo desenhos e séries cheios de “lutinhas”.

 

Não à toa meninos são os principais alvos de brinquedos que simulam armas, de jogos que simulam chacinas e de séries/desenhos com violência física explícita, sua masculinidade é alimentada como sinônimo de agressão. Até porque, tudo que não corresponde a isso é coisa de “menininha”, usado dessa forma em tom pejorativo. Então além de existir uma Cultura do Ódio, ela se molda e impacta de forma distintas a partir do fator gênero, raça, classe, e tantos outros marcadores sociais. Incentivando ou vitimizados sujeitos, a partir dessa estrutura. Não estamos de nenhuma forma imunes, até mesmo as novelas que nossa avó assisti no fim do dia, naturalizam assassinatos! É comum homicídios, sequestros, estupros, violência doméstica, em todos os horários da teledramaturgia, até mesmo o uso de armas se dá de forma simplória.

 

Dida Sampaio/Estadão Conteúdo – 19.7.2018

 

A vida é tratada de uma forma muito banalizada no nosso país, personagens levam tiros, são mortos ou se comportam de forma sociopata diariamente na nossa televisão, e o brasileiro aparentemente está acostumado a ver isso e não se impactar. Se pensarmos na quantidade de pessoas assassinadas no principal produto da TV brasileira, ficaríamos chocados, que por mais absurdo que seja o jornalismo performático da brutalidade, é também na sutileza da suposta narrativa romântica que a opressão e trivialização da violência vem sendo introduzida. Mas como já disse no começo, nos últimos anos a cultura do ódio vem sendo propagada como CAMPANHA POLÍTICA, reforçando e ganhando novas nuances que a alguns anos não víamos, chamamos de uma onda fascista, e sem dúvidas é isso que é. Segundo alguns ela é tida como apenas uma “oposição” política, porém para muitos sequer estamos lidando com manifestações e quadros políticos que se encaixam em parâmetros liberais, como dizem ser, são ultraconservadores que negam qualquer tipo de avanço social, que não se incomodam com o aumento da miséria, e tampouco com suas palavras agressivas direcionadas a grupos minoritários, como negros, mulheres, e lgbts.

 

Assustadoramente, boa parcela dos brasileiros se identificam com tais condutas, não à toa elegeram Jair Bolsonaro. Um homem que fez carreira apenas com seus discursos violentos, sem nenhuma proposta ou ação efetiva em anos como deputado, e que agora como presidente mostra que sua conduta não foi alterada pelo aumento da responsabilidade. Bolsonaro e seus filhos, continuam com seus discursos desmedidos e irresponsáveis, ignorando qualquer tipo de decoro em relação aos papéis que optaram em representar, Eduardo Bolsonaro mesmo sendo político e filho de outro político, chegou a postar fotos cercado de armas, abstraindo toda a sua responsabilidade social enquanto pessoa pública. As imagens e gestos dessa família são todas para reacender nos brasileiros a escolha por condutas agressivas, individuais e impensáveis, apologia clara a uma saída pelo fascismo. Por isso, a maior busca dos Bolsonaros é garantir que todo mundo tenha acesso a armas, desprezando o que isso significa no nosso contexto. Desconsiderando inclusive, que existe um sistema de segurança que deveria ser garantido pelo Estado, e que responsabilizar sujeitos pela sua própria proteção é no mínimo não querer fazer o próprio trabalho, ou desconsiderar que armas como um artigo “cotidiano” nos levariam a um massacre.

 

Eduardo Bolsonaro

 

Armas matam! Armas foram feitas para essa finalidade: ferir e/ou matar. Se filmes te fizeram acreditar que uma arma é tão fácil de ser carregada, tanto quanto um ferimento a bala de ser curado, eu venho aqui para dizer que são falácias. Tão grandes quanto comparar os perigos de se ter uma arma em casa, com ter um liquidificador. Se o seu presidente considera que sua maior política pública será a implementação do uso deliberado de armas, então você elegeu a incivilidade. Parece que Bolsonaro e se “clã” de ignorantes, ainda não entendeu o que ser presidente/político significa. O nosso “presidente” chegou a inclusive dar entrevistas dizendo que dorme com uma arma do lado mesmo no Palácio da Alvorada. Notem que mesmo num reduto com uma série de proteções, Bolsonaro continua armado, a arma para sua família parece muito mais uma afirmação de masculinidade e poder, do que uma real necessidade, dado que no Palácio da Alvorada existe uma série de restrições e cuidados para garantir o bem estar dele sendo presidente. Percebemos uma espécie de paranoia, que vem sendo difundida por ele em suas redes sociais para uma série de brasileiros, nutrindo uma cultura que não se encaixa com nossas perspectivas e possibilidades de futuro. Pois não há expectativas futuras, caso as pessoas comecem a se matar mais e mais, num país que a cada 23 minutos já mata um jovem negro.

 

Após o massacre em Suzano, em que um adolescente um adulto entraram armados em uma escola e ceifaram a vida de funcionários e estudantes. A demora por uma manifestação de nosso atual presidente, falas como a de Major Olimpio, mostraram que a maior preocupação na atual na conjuntura política, é que fatos como esse não afetem o foco principal, que é garantir o acesso cada vez mais fácil a compra e uso de armas de fogo e a capitalização em cima disso. Mais uma vez a Cultura do Ódio está ganhando os palcos e narrativas principais, quando deveríamos estar falando em desarmar pessoas e propagar a paz. Mas esse é o governo que o brasileiro escolheu para um “novo rumo”, rumo a um grande abismo.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.