O pobre sofrido “que deu certo”: a meritocracia por trás da admiração da branquitude.

 

Há exatamente três meses Joana D’Arc Félix foi denunciada em diversos jornais brasileiros por ter apresentando um certificado de pós-graduação em Harvard que não foi confirmado pela universidade em questão. Ademais, a própria universidade de Harvard chegou a dizer que existia um erro de digitação no documento que ela enviou ao jornal Estadão como comprovação da sua passada por lá. O que significaria que Joana teria apresentado um documento falso, por sinal algo muito sério e considerado criminoso. Depois disso, uma série de jornais foram atrás de outros “deslizes” de Joana, visando assim tapar os buracos das inúmeras matérias que fizeram com ela sem apurar os fatos. Meses depois dessa história, me sinto segura para falar sobre isso, afinal o que torna essa história tão simbólica para pensarmos as condutas por trás da lógica meritocrática?

 

No começo fiquei pensando sobre uma série de coisas ditas por Joana, como ter entrado na universidade quando tinha 14 anos, e qual seria a necessidade disso para ela diante do currículo que já têm. Depois o que mais me intrigou foi do porque sua narrativa foi tão facilmente comprada pela elite e imprensa brasileira, que tendem a fazer um trabalho investigativo mínimo.

 

No fundo, minhas conclusões são que estamos diante da típica história do “pobre sofrido que deu certo” que a mídia brasileira e a elite adoram nos vender com seu viés meritocrático de que se os que estão na base da pirâmide se esforçassem, essas pessoas conseguiriam atingir sucesso, dinheiro e prestígio.

 

Joana foi totalmente usada nesse sentido, e seu discurso também foi alinhado para isso, pois ela mesma chega a dizer em um TEDx que conseguiu tudo sem vitimismo. Sem dúvidas ela se tornou um bode expiatório de uma estrutura que sequer controlava e foi facilmente descartada quando isso veio à tona.

 

Afinal de contas, mesmo que seja uma doutora pela Unicamp, a história de Joana só era interessante para algumas pessoas, quando tinha o fator “fora da curva” do surpreendente e grandioso diploma em Harvard e da menina prodígio que aos 14 anos entrou numa das universidades mais prestigiadas do Brasil. Só assim Joana funcionava para ser usada como instrumento que pressiona todos nós negros e/ou pobres, que reclamamos demais e só não chegamos “mais alto” porque não queremos nos esforçar. Não estou aqui para defender a Joana, pois também não vou entrar na lógica de instrumentalizar o racismo e usá-lo para justificar as escolhas que ela fez, acredito que as mentiras dessa história são sérias e vão além de aumentar um currículo. O próprio jornalista do Estadão que começou a investigar sua história, alega que fez isso após perceber que Joana dizia ter idades diferentes em entrevistas.

 

Logo, parece que suas questões vão além da mera mentira para ter um currículo mais atrativo.

 

Então, o meu ponto é que a forma como ela alegou racismo assim que as denúncias começaram a surgir não condiz, o que eu vi foi um trabalho jornalístico sério que já deveria ter sido feito antes: o da apuração de histórias. E mais, entendo que o racismo não mora no depois dessa história, e sim no antes, quando Joana foi sendo usada para difundir um ideal que pobres precisam ter narrativas extraordinárias de superação da miséria para que sejam dignos e exemplares. Até porque todo o processo acadêmico de Joana na educação se deu antes mesmo das COTAS, assunto que por mais que tenha seus inúmeros resultados positivos até hoje é questionado pela branquitude brasileira.

 

 

A forma que a história de Joana foi construída e aceita era para mandar um recado, então sequer o bem estar dela importava para aqueles que espremeram sua narrativa até o fim e que depois se colocaram como traídas não pela descoberta, e sim pelo fim de um modelo a ser usado para justificar que se “a gente quisesse, a gente chegava lá”.

 

 

Não à toa que muitos dos admiradores de Joana seguem visões neoliberais ou conservadoras, pois o discurso da educação como solução é idolatrada por esses, contudo é uma educação que você precisa ser digno e conquistar sem “esmolas”. Não acho insignificante que Tabata Amaral, com também sua fala sobre ser pobre e ir para Harvard, seja tão aceita, endossada e patrocinada pela mesma elite cultural e financeira que vendeu a história de Joana na Rede Globo e em jornais como O Globo, Folha de São Paulo etc. Esses meios adoram nos alimentar com matérias em que especial pobres e/ou negros são mostrados em seu auge num viés meritocrático. Até mesmo em novelas, a pobreza é tida como uma derrota e um empecilho que é superado com amor e esforço do pobre “digno”, o bom mocinho novelesco sem dúvidas mora na narrativa do pobre sofrido “que deu certo”.

 

Asseguradamente, esse foi um momento importante para nós enquanto espectadores, precisamos ter mais bom senso sobre o que temos como representatividade e o que nos é vendido como representatividade, Joana é um exemplo pelo seu trabalho, contudo agora também é por nos mostrar como somos descartáveis quando não servimos mais para alimentar uma estrutura nociva que tenta nos vender que basta querer e mudamos as estruturas seculares de opressão. 

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.