Onde está a consciência negra da TV brasileira?

“Não podemos ter consciência do que somos e ao mesmo tempo permanecermos em cativeiro”. Esta frase de Steve Biko, ativista negro sul-africano antiapartheid, define o significado do dia da consciência negra. Biko foi assassinado aos 30 anos de idade, em setembro de 1977, pelas forças da repressão do estado racista da África do Sul, bem depois da morte de Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695. Mas, apesar de não ter sido a inspiração para esta data no calendário brasileiro, ajuda a trazer clareza ao significado de Consciência Negra.

Em essência, significa a percepção por parte da pessoa negra de suas origens e do que simboliza para uma sociedade racista como a nossa. E, para além disso, refletir sobre como, coletivamente, se libertar dessas correntes de servidão que Biko apontava. É difícil resumir um conceito tão complexo, que atravessa gerações mas, resumindo, é consciência de raça e de racismo.

Em um país cuja maioria se declara negra, o dia 20 de novembro deveria ser nada mais do que uma celebração de resiliência e reparação histórica. Mas ainda somos perseguidos pela sombra do colorismo, que esconde a ancestralidade de boa parte de seus habitantes com aquelas histórias de “somos todos humanos”. Desculpe a aulinha de história acima, mas ela foi necessária para contextualizar.

 

Ter uma população negra consciente de sua negritude reflete na maneira com que histórias são contadas, principalmente na grande contadora de histórias que é a TV brasileira.

 

Analisando a maior emissora do Brasil e detentora das grandes novelas, a Rede Globo, é fácil notar que não há esta consciência nos bastidores das grandes produções, algo que se reflete há muitos anos em suas novelas. O que o canal não previu é que a consciência de seu público aumentaria e tornaria cobrança.

Já não fazia sentido ter tantas novelas com protagonistas brancas e mulheres negras sendo colocadas como escravas (nas de época) ou empregadas (nas atuais). Há muito o público ansiava por mais. Mas a divulgação do elenco da recém encerrada novela das nove Segundo Sol foi a gota d’água: para um roteiro que se passava inteiramente na Bahia – Estado com maior população negra desse brasilzão – e ainda sim, os brancos eram a esmagadora maioria na trama.

 

Elenco principal da novela Segundo Sol.

 

E não, não foi por escassez de talentos consagrados da nossa TV, tampouco por falta de capacidade da emissora de fazer uma boa busca de casting ou treinar novos atores. Foi racismo mesmo.

Como resposta, a emissora correu para incluir, apressadamente, novos personagens na novela estreante seguinte: O Tempo Não Para. A trama é sobre uma família que sobreviveu a um naufrágio ficando congelada no mar por mais de cem anos e agora despertam em pleno 2018. Não precisa nem dizer que, mesmo com os desenvolvimentos de tecnologia e das cidades, um dos maiores espantos para o pessoal do passado é o fato de que não existe mais escravidão.

Mas se estamos falando de consciência negra, não é o ideal falar sobre escravidão? O problema é como se fala do assunto.

 

Elenco da novela O tempo não para.

 

Em teoria, seria mesmo um espanto para famílias escravocratas descobrirem que a população negra está livre em um futuro próximo. Mas a Globo já deu um jeitinho de apresentar os personagens escravos que também “viajaram no tempo” como, basicamente, empregados da família na época e que eram vistos, é claro, como iguais. E isso já é um jeito bem estranho de contar a história.

Não seria o caso de ter – de maneira crítica, É ÓBVIO – um personagem com pensamentos do século passado, que seja contra a abolição? Eu nem de longe sugeriria colocar os personagens escravos a debater contra ele em uma época em que estão livres. Seria interessante somente ver este tal vilão inconformado com a liberdade de quem considera inferior e aprendendo sobre isso – o que muita gente dos tempos de hoje ainda precisa.  

A Globo provavelmente julgaria tal arco muito pesado para sua audiência, como aconteceu em O Outro Lado do Paraíso, novela das nove em que uma personagem racista foi colocada no núcleo de comédia para “não ser tão odiada pelo público”. Mas, honestamente, se não souber falar sobre racismo e escravidão, melhor nem se atrever ao ato – ou, no mínimo, ter pessoas negras como responsáveis do roteiro.

 

Eliane Giardini (Nadia) e Luis Melo (Gustavo) formavam o casal racista que não aceitava o relacionamento do filho com uma mulher negra.

 

A verdade é que este grupo reforçado de personagens negros ainda está longe de ser, pelo menos, a metade do elenco completo da novela, tampouco seus personagens são impactantes o suficiente na trama para de fato causar reflexão – isso aconteceria se a novela fosse sobre ou tivesse um grande arco sobre isso. Os escravos congelados são Aline Dias, Cris Vianna, David Júnior, Maicon Rodrigues e Olívia Araújo. Além deles, os personagens “do presente” são de Milton Gonçalves, Solange Couto, Juliana Alves, Micael, Lucy Ramos e Max Lima.

 

Lucy Ramos interpreta Vanda, uma advogada de sucesso na novela O tempo não para.

 

Seguindo a premissa de não mais aceitar papéis que considera estereotipados, Lucy Ramos interpreta Vanda, uma advogada objetiva e rigorosa – pois pessoas negras também podem ser isso e muitas outras coisas – no novo folhetim das sete. Mas ainda é irônico que, mesmo fugindo de tais personagens, ela ainda se vê em uma novela com não somente um personagem escravo, mas cinco! Em entrevista para a Revista Raça de outubro – que destaca os atores negros de O Tempo Não Para em sua capa – ela defende a escolha de emissora, comemorando representatividade, qualquer que seja esta representatividade.

 

Karoline Gomes

Feminista negra interseccional, jornalista de formação e pós-graduanda em Cinema e Linguagem Audiovisual. É fundadora do projeto sobre endometriose e saúde da mulher, EndoMapa e co-diretora do Entreviste um Negro. Passou por veículos como MdeMulher, Finanças Femininas, Modefica, Think Olga e outros, sempre trazendo conteúdo com viés de gênero e raça.