Os custos do machismo para o desenvolvimento econômico

Embora nas últimas décadas tenhamos testemunhado avanços em diferentes áreas, a desigualdade de gênero ainda é uma realidade, especialmente nos países em desenvolvimento. No Brasil, as evidências da estagnação são claras, não apenas quando se analisa as diferenças salariais, como também a falta de representatividade no governo e a impunidade nos casos de violência contra a mulher.

O que pouco se discute é que a questão antes tratada apenas como um insulto às noções mais básicas de justiça, o que já é grave, é também um entrave ao desenvolvimento econômico e nos custa dinheiro. Segundo dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres recebem, em média, 74,5% da renda dos homens, tendo mesmo nível de escolaridade e faixa etária.

Em estudo publicado recentemente pelo Instituto Mercado Popular, o analista econômico Carlos Góes reuniu dados relevantes que evidenciam estatisticamente os resquícios da persistência da cultura machista na diferenciação salarial  entre homens e mulheres e também as implicações econômicas destes padrões culturais.

A Fundação de Economia e Estatística do Governo do Rio Grande do Sul, mostrou em levantamento que as diferenças de educação, idade, experiência, sindicalização, horas trabalhadas, geografia e características da indústria onde as pessoas trabalham podem explicar realmente cerca de 2/3 das diferenças salariais entre homens e mulheres. No entanto, mesmo depois de consideradas todas as características capazes de influenciar o salário, ainda persiste sem justificativa alguma 1/3 da diferença salarial, que tem como sustentação ainda nos dias de hoje uma forte conexão com compreensões discriminatórias.

 

brasilgender - Mercado Popular

 

Qual o custo do machismo?

O machismo custa caro a sociedade pois desestimula a participação da mulher no mercado de trabalho e isso reflete diretamente no desenvolvimento social e econômico da nação. A falta de valorização salarial, baixíssima representatividade  em cargos públicos e de chefia e a persistência das desigualdades de gênero contribuem unicamente com a estagnação.

Países que investiram nas últimas décadas em políticas capazes de estimular o empoderamento das mulheres, atualmente vivem momentos de estabilidade econômica, mesmo diante da instabilidade mundial. É o caso da Islândia, Noruega, Finlândia, Suécia e Irlanda que lideram o ranking dos países com menor desigualdade de gênero.

Somada as dificuldades que a economia brasileira já vem sofrendo, outro fator começa a evidenciar a necessidade de mudanças. Com o fim do Bônus Demográfico, a forte queda da natalidade e o envelhecimento da população, a tendência é que a concentração de pessoas em idade ativa, trabalhando e pagando impostos e contribuições para a Previdência diminua, provocando desequilíbrios cada vez mais severos nas finanças públicas.

E o problema é que as mulheres em idade ativa não estão sendo estimuladas a fazer parte da força de trabalho e não é atoa que o Brasil já começa a enfrentar problemas previdenciários. Com base em dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE, que analisou as seis regiões metropolitanas mais dinâmicas do país, 57,72% das mulheres em idade ativa estão sem ocupação.

Há alternativas para superar essas dificuldades. No entanto, é essencial haver mudanças, principalmente culturais, em um movimento de superação das velhas crenças, pela busca da prosperidade sustentável. A ampliação da rede de atendimento da educação infantil (berçários e creches), oportunidades de trabalho mais flexíveis (meia jornada, trabalho em casa, entre outras opções), incentivo ao empreendedorismo feminino, bem como a ampliação e discussão sobre o papel da mulher na sociedade, redução das desigualdades de gênero no mercado de trabalho e representatividade feminina nos organismos públicos contribuem decisivamente.

A realidade exige um trabalho de conscientização, de busca por direitos constitucionais e que homens e mulheres trabalhem juntos pelo avanço. Este é um trabalho de colaboração e de soma, em que todos ganharão com o crescimento econômico do país.

 

 

Thata Saeter

Jornalista

Thata Saeter é jornalista, empreendedora e fundadora da Jornalistica Media Relations. É graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo e MBA em Marketing e Comunicação pela ESPM. Estudou Estratégias de Marketing Digital na New York University (NYU) e também Consultoria de Imagem, na Fashion Institute of Technology (FIT) em New York. Escreve sobre Empreendedorismo feminino, Tecnologia e Economia.