Oscars: da diversidade à normalização, passando pela representatividade

 

Como estudante de cinema, preciso deixar todas as minhas ressalvas a respeito do Oscar de lado e sempre prestar muito atenção à premiação como um todo. Ao longo dos anos, as escolhas da Academia tem sido referencial histórico das eras e evolução do cinema, de movimentos culturais e muitas outras tendências do cinema, entre elas, o racismo.

 

Já como jornalista que cobre entretenimento, cultura e, é claro, cinema, cabe a mim não só lembrar dessa história do cinema que o Oscar ajuda a construir, como também noticiá–la, já que segue sendo feita, como vimos na última edição da premiação, que aconteceu no último domingo (24).

 

Dito isso, parece que o caminho é certo para o meu artigo. É preciso lembrar que que Ruth E. Carter e Hannah Beachler foram as primeiras mulheres negras a ganharam estatuetas por seus trabalhos em Figurino e Direção de Arte respectivamente por Pantera Negra. Aproveitando o ponto, preciso destacar que o filme de herói do lucrativo universo cinematográfico da Marvel superou todas as expectativas e quebrou tabus da premiação – parece que quem lacra lucra, não é mesmo? -, levando três Oscars como um todo (também o de Melhor Trilha Sonora Original).

 

Reforçar que o Oscar caminha para reconhecer talentos negros, premiando Mahershala Ali (por “Green Book – O Guia”) pela segunda vez consecutiva como Ator Coadjuvante; no mesmo ano que escolheu Regina King (por “Se a Rua Beale Falasse”) entre nomes brancos indicados a Atriz Coadjuvante e premiando Spike Lee, pela primeira vez – por Infiltrado na Klan – depois de mais de 30 anos como diretor de “Black Movies”.

 

A edição de 2019 foi também a que mais premiou mulheres e pessoas de cor na história e só não foi melhor para a comunidade LGBT do que a do ano passado. Se neste ano três dos atores premiados interpretaram personagens que fazem parte do grupo minorizado (e pouco representado), em 2018, 10 profissionais que de fato eram LGBT levaram estatuetas.

 

Agora que cumpri minha obrigação de comunicadora listando todas essas conquistas, passo para minha obrigação como crítica, com a pergunta:

 

Que tipo de história estamos vendo ser construída?

 

Se você reler as descrições acima, vai notar que o Oscar está mais em destaque do que os profissionais da indústria e tem levado o mérito por transformar a premiação que, na verdade, é todo desses profissionais que não só trabalham, como lutam por destaque, reconhecimento e, é claro, para vencer barreiras de gênero, classe e raça em Hollywood.

 

Claro que representatividade importa e sempre, e ver todos esses negros brilhantes sendo reconhecidos é, no mínimo estimulante para mim e, imagino que, para muitos outros jovens negros que amam e querem trabalhar com cinema. Mas a verdade nua e crua é que o Oscar já passou da sua obrigação de reconhecer a diversidade na indústria e não está fazendo mais do que a sua obrigação.

 

Quanto mais pessoas negras, mulheres e LGBTs entram na academia por meio de seus prêmios, mais estes marcos vão se repetir e logo deixarão de ser históricos e apenas normais. Esta premiação, que muitas vezes representou os gostos pessoais ou visões de homens, brancos e tradicionais está passando agora por um processo de normalização e isso é ótimo!

 

Logo, mais do que representativo, será normal falar de Spike Lee, Jordan Peele, Regina King, Mahershala Ali e tantos outros.

 

Por isso, se me permite tomar minha habilitação em jornalismo novamente, a imprensa precisa começar a transacionar também, e falar sobre as vitórias negras de maneira normalizada. Citar sim os pontos históricos, mas deixando um pouco de lado a métrica do Oscar, e sim, finalmente passar a destacar as histórias das pessoas que seguram as estatuetas.

 

Também deve ser função do jornalismo normalizar a cultura negra e de outras minorias, levando-as para fora das premiações, ajudando a tornar normal ver papéis negros em filmes que não necessariamente falam de negritude ou ainda termos filmes que falam sim de negritude (já que muito ainda precisa ser contado), mas sem passar pelo público como cotas ou lacração, e sim como parte do cinema e sua responsabilidade de contar histórias.

Karoline Gomes

Feminista negra interseccional, jornalista de formação e pós-graduanda em Cinema e Linguagem Audiovisual. É fundadora do projeto sobre endometriose e saúde da mulher, EndoMapa e co-diretora do Entreviste um Negro. Passou por veículos como MdeMulher, Finanças Femininas, Modefica, Think Olga e outros, sempre trazendo conteúdo com viés de gênero e raça.