Por que mulheres negras recebem menos de 40% do salário de um homem branco?

Segundo o relatório “Mulheres e Trabalho: breve análise do período 2004-2014”, publicado pelo Ministério do Trabalho, mulheres de cor preta não chegam a receber 40% do salário de um homem branco.

Para se ter uma ideia, no ano de 2014, o salário médio das mulheres negras foi de R$ 946 reais, enquanto o de homens brancos ficou em cerca de R$ 2.393. Estamos em 2016 e, 128 anos após a abolição “oficial” da escravidão no Brasil, ainda não corrigimos essa distorção.

 

Por que isso continua acontecendo?

A meu ver, a principal causa é o preconceito que ainda existe nas organizações e que segrega as mulheres negras a funções invisíveis.

Essa resposta nos leva a outra pergunta: O que podemos fazer a respeito? Sim, porque seja você negra ou não, isso é com você.

É impossível mensurar a dor de ser negra se você não é uma, mas esse tipo de injustiça deve tocar cada mulher que já se sentiu desvalorizada pela sua cor, crença, origem, sotaque, forma física, orientação sexual ou bairro em que mora.

Há duas grandes frentes em que podemos agir: a coletiva e a individual.

Coletivamente, devemos denunciar casos de racismo, apoiar entidades que promovem a inserção igualitária no mercado de trabalho e eleger governantes engajados na causa. No site do Geledés, Instituto da Mulher Negra, há muita informação sobre o assunto

A outra frente de atuação é a individual. Trata-se de minimizar os efeitos devastadores do racismo sobre a autoestima de cada mulher, para que elas se tornem cada vez mais visíveis e pressionem por mudanças que tardam a vir de cima.

Apesar de não poder sentir o que é ser negra no Brasil, tive a oportunidade de contribuir como coach de carreira com algumas mulheres negras, e de comemorarmos bons resultados juntas. Talvez você se identifique com as situações a seguir e sinta que as estratégias que funcionaram com elas podem ser úteis para empoderar você.

 

Libertar-se da autossabotagem:

Depois de muitas noites em claro e finais de semana de estudo, a professora Sandra (vamos chamá-la assim, ok?) foi escolhida para representar a universidade onde leciona, em um congresso de Biologia, no exterior.

Fez as malas empolgada e orgulhosa. A emoção positiva, porém, deu lugar a um desconforto estranho, assim que ela ganhou uma taça de vinho da comissária de bordo platinada.

Medo de voar? Não. Sensação de estar traindo as pessoas que amava, ao penetrar um mundo que não era o da mãe dela, do namorado nem dos vizinhos da comunidade.

Quando subiu ao palco para se apresentar, a garganta secou, a voz falhou. Durante os coffee-breaks, enquanto colegas do mundo todo aproveitavam para trocar experiências, Sandra ficava num cantinho e só falava com quem se aproximasse.

Das sete noites, cinco ela terminou comendo salada ceasar no quarto do hotel porque não se sentia bem em jantar onde só havia negros servindo.

Quando nos conhecemos, ela estava com raiva de si mesma por ter desperdiçado a ocasião, e tinha receio de que a “síndrome de impostora” desse as caras na próxima oportunidade de se destacar.

Combinamos que ela ficaria atenta e, quando aquela sensação estranha voltasse, ela repassaria mentalmente uma lista de atributos que a faziam merecedora de estar ali.

Além disso, ela aprendeu a visualizar tudo o que a família, o namorado e a comunidade ganhariam com a ascensão profissional dela. Entre os Planos, está o de promover um curso de higiene na comunidade, e levar a família para uma viagem a Portugal. Falta pouco para voarem juntos.

Sobre o sentimento de culpa pelo sucesso, a ativista negra e escritora premiada Maya Angelou disse:

“Eu aprendi há muito tempo que a coisa mais sábia que posso fazer é estar do meu próprio lado, ser um advogado para mim e para outros como eu.”

Quando Sandra compreendeu isso, parou de se boicotar. A mudança de mentalidade – de traidora para multiplicadora – blindou a sua autopermissão para ter e ser mais.

 

Colecionar referências:

Lúcia planeja se tornar juíza e, pela experiência de frequentar fórum e tribunais como estagiária em um escritório de advocacia, já sabe que vem muito enfrentamento por aí.

O que a ajuda a não desistir do Plano é se inspirar na história de grandes realizadoras negras.

Numa de nossas sessões, ela trouxe uma lista poderosa:

  • Oprah Winfrey, que se tornou apresentadora do talk-show de maior audiência mundial, numa época em que essa função era ocupada por homens brancos e mulheres loiras.
  • Zica de Assis, cabeleireira que inventou uma fórmula para tratar cabelos cacheados e se tornou a empresária de sucesso à frente da rede de salões “Beleza Natural”.
  • Rachel Maia, CEO da grife dinamarquesa Pandora no Brasil, segunda maior joalheria do mundo, atrás apenas da Tiffany, que ela também ajudou a se estabelecer por aqui.

Quando surgem dúvidas, medo ou ansiedade, Lúcia se pergunta: “O que a Oprah faria no meu lugar?”.

Essa tática, além de ser uma injeção de autoconfiança, tem o poder de nos conectar a quem já chegou aonde queremos estar e de diminuir a sensação de solidão.

Investir em autoconhecimento:

Cláudia era uma coordenadora de telemarketing que reagia ao racismo fazendo um curso após o outro. Ela sentia que precisava se preparar muito mais que os colegas brancos para ter vez e voz na organização.

O problema é que, ao empregar toda a energia na capacitação técnica, não sobrava dinheiro nem tempo para desenvolver outros aspectos que poderiam lhe render uma promoção.

Ao longo dos nossos encontros, ela revelou insegurança quanto à sua imagem: não se sentia bem com os terninhos cinzas que as colegas usavam e, por outro lado, temia parecer colorida demais.

Depois de investir em uma consultoria de imagem, Cláudia encontrou o seu estilo e o incorporou ao dress code da empresa. Atualmente, ela tem sido cotada para exercer uma função fora da caverna do call center.

 

Estabelecer limites:

Empoderar-se é, sucessivamente, exterminar as limitações a que nos sujeitamos.

No decorrer do processo de coaching, a analista de Recursos Humanos Eliane passou a se incomodar com situações que, antes, ela julgava normais, como ficar encarregada de servir água aos colegas, durante as reuniões.

Ela percebeu que se sentia impelida a assumir a função de “suplente de copeira” e que aquilo era uma forma de discriminação, sim.

De um jeito firme, sem se justificar, mas também sem agredir, Eliane sugeriu um rodízio de colegas para servirem água. De imediato, um gerente se prontificou a pegar a jarra.

 

Expandir o empoderamento:

Pode ser que, hoje, você não se sinta em condições de impor muitos limites ao comportamento alheio. Talvez dependa de um emprego que a subjuga e tenha medo de arriscar o ganha-pão.

Não posso pedir que você jogue tudo para o alto. Apenas prometa a si mesma que essa situação não vai perdurar. Estabeleça um prazo para sair dessa e saia mesmo, como fez a Judite.

Mãe de três meninas, ela trabalhava como assistente administrativo em uma prestadora de serviços para um grande órgão público.

Todos os dias, era alvo de racismo por parte dos colegas, que, dentre outras ofensas, trocavam o fundo de tela do computador dela por imagens de macacos.

Farta de não ser ouvida pelo contratante e diante da possibilidade de mudar de emprego para ganhar menos, ela me procurou. Sabia que a mudança custaria cortar o Inglês das meninas e, aos 42 anos, temia que o downgrade prejudicasse o currículo.

Pedi que ela trouxesse as filhas e colocamos todas as variáveis na mesa. Juntas, elas chegaram à conclusão de que o que estava em jogo era a dignidade de toda a família.

As mais velhas apoiaram a mudança de emprego da mãe, dispuseram-se a fazer brigadeiro para vender na escola e, com isso, custearem o próprio curso de Inglês. Além disso, comprometeram-se a cuidar da caçula para Eliana concluir o curso de Excel noturno que havia trancado.

Toda vez que uma mulher se defende, sem nem perceber que isso é possível, sem qualquer pretensão, ela defende todas as mulheres.”  

Mais uma vez, Maya Angelou arrasou ao falar do poder que uma mulher empoderada tem de contagiar as outras.

Esse foi o exemplo que Eliana deu para as filhas: não tem dinheirinho ou dinheirão que valha a nossa dignidade.

Para terminar esse post, desejo que você descubra o que te empodera e lance mão de todas as ferramentas para não se deixar abater. Crie os seus próprios mantras, cerque-se de tudo o que mantém você no seu eixo de força e conquiste até o mais ousado dos Planos.

Faço minhas mais essas palavras da Maya:

“Eu adoro ver uma garota sair e conquistar o mundo pelas lapelas. A vida é escrota. Você tem que encarar e quebrar tudo.”

Priscilla de Sá

Jornalista

Jornalista, Psicóloga, Coach, Palestrante e mãe do Pedro (nunca nessa ordem). Apaixonada por livros, vinhos e queijos, ela tem um Plano: ajudar as mulheres a assumirem a liderança das organizações e, principalmente, das próprias vidas.