Qual a culpa que você carrega por ser mulher?

Na entrevista que Taís Araújo concedeu à Marie Claire no mês de julho ela diz se sentir culpada por não ter amamentando a sua filha, já que no fim da sua segunda gestação tomou antibióticos para sanar uma infecção, e que quando estava pronta para amamentar Maria, a bebê já não quis o peito. Culpa, foi exatamente essa a palavra que Tais usou para descrever esse momento. Culpa é sem dúvidas a sensação que permeia a realidade de muitas mulheres, famosas, anônimas, ricas, pobres, brasileiras ou estrangeiras. Culpa nos une enquanto mulheres e nos aprisiona nessa identidade compartilhada do que é ser mulher, mesmo nas nossas inúmeras diferenças.

Algumas sentem culpas como a de Taís ligadas à maternidade, acham que não se entregam totalmente aos seus filhos, que quando um filho comete um erro é porque elas não agiram corretamente, e claro que elas não podem se priorizar em nenhum momento. Do outro lado mulheres não mães sentem culpa por não querer ser mães, planejar suas vidas sem pensar em filhos ou por simplesmente não poder biologicamente dar à luz a uma criança, mesmo que ser mãe não se limite a isso, numa sociedade que diz que esse é o principal papel de uma mulher existem inúmeras cobranças, mas nenhuma facilitação para que isso seja vivido em sua plenitude. São diversos os causadores desse nosso sentimento constante de culpa que não é apenas individual, se torna coletivo, a partir do momento que muitas passam por isso.

 

Filme “Como nossos pais”

Culpa quando somos nós as vítimas, como bem acontece nos casos de violência doméstica; culpa se vivemos uma vida boêmia, culpa por não abandonar o relacionamento problemático já que sem nossa ajuda eles dizem não conseguir viver, culpa por não querer fazer sexo, culpa por fazer muito sexo, culpa por não estar num relacionamento, culpa por não passar maquiagem, fazer as unhas e ser tão feminina assim, culpa por fazer sexo no primeiro encontro, culpa por conseguir ajudar outras mulheres como você gostaria, culpa até quando comemos! Culpa constante que abrange todos os aspectos da sua vida e corpo quando somos mulheres.

A culpa que vem por ações que muitas vezes não são nossas, mas que são colocadas nas nossas costas e não conseguimos nos livrar. Por isso não tenho dúvidas de que muitas de nossas culpas têm gênero, e é o feminino. Não estou dizendo que homens não se sentem culpados e que não são pressionados por outras pessoas e até mesmo pela sociedade.

Todas as pessoas são julgadas, mas mulheres são julgadas por simplesmente serem mulheres e não corresponderem ao que definem que é ser mulher.

Uma amiga querida disse sentir culpa de chegar depois dos estudos e estar tão cansada que prefere dormir, ao invés de lavar a sua louça. Sabe, isso deveria ser nosso direito, eu não deveria ter crescido sendo ensinada lavar os pratos depois do almoço enquanto meus tios, primos e avô conversavam na sala. Então eu me sinto assim também, culpada por não cumprir as “tarefas domésticas” e tenho certeza de que meu namorado não sente o mesmo pois já conversamos sobre isso. Para eu escrever esse texto eu precisei limpar, varrer, passar pano, lavar a louça, esfregar o banheiro, e muitas vezes acabo desistindo pois já estou tão cansada que preciso dormir, mas é só depois dessa maratona que me sinto “em paz”. Sinto como se só fosse possível produzir algo caso as minhas outras tarefas estejam cumpridas. Mesmo que ninguém tenha me delegado essas tarefas diretamente! É a minha casa! Eu poderia e deveria decidir a rotina desse ambiente conforme minhas necessidades e tempo, mas é mais forte do que eu mesma. Estar numa sociedade que define papéis sociais e a criação de indivíduos de formas distintas conforme seu gênero, é sofrer imposições acima do seu próprio desejo. E se libertar disso não é uma tarefa fácil.

Cumprimos nossos papéis e muitas vezes, nem sequer achamos justo reclamar sobre isso, pois sabemos que é capaz de falarem que queremos chamar atenção, que estamos sendo chatas e que isso não é um “problema sério”. De uma forma muito nítida a sociedade te diz qual é o seu lugar e quais são as amarras que te limitam, para mim foi dito desde pequena que eu deveria servir, a um homem e ao Estado. Por isso, muitas mulheres se sentem na obrigação de suprir as necessidades de terceiros, e deixar as suas de lado e quando não fazem isso são cobradas e ofendidas. Me percebi sendo uma dessas quando notei minha então dificuldade em dizer NÃO para as pessoas com medo de decepcioná-lás e até mesmo de soar metida. Muitas de nós fomos ensinadas que se colocar em primeiro lugar é errado, arrogante, que ter confiança em nós mesmas é ruim, e no fundo mesmo que eu nade para longe disso eu continuo sendo pega de volta para isso. Eu não consigo dizer NÃO. Não consigo dizer não ao excesso de pedidos que me fazem, ao excesso de coisas me cobram, a minha própria cobrança em querer ser sempre duas vezes melhor num mundo tão cruel.

 

 

Mesmo que muitas vezes eu me sobrecarregue e me exponha para suprir as necessidades alheias, não consigo dizer NÃO, e assim as coisas foram se acumulando tiraram o tempo que eu tinha para mim mesma, e começaram a se tornar um peso. Foi então que percebi que minha dificuldade para dizer NÃO caminhava em paralelo com a visão das pessoas que eu estou sempre pronta e apta para cumprir o que elas desejam de mim, pensando em gênero e raça eu de forma desumana fui colocada num lugar de servir como sempre, e mesmo que eu fuja disso, eu continuo de alguma forma sendo explorada e jogada de novo nesse lugar. Pois eu mesma não consigo me ver como humana, que tem falhas e que não precisa estar sempre disponível.

Recentemente em uma conversa com uma mulher negra ela me disse que tinha aprendido com seus seu filhos que dizer não para alguém, é dizer sim para você. Acho que esse é o meu aprendizado do ano. Nem sempre conseguimos medir como achamos erradas enquanto mulheres, e falo enquanto mulher negra, dizer não para as pessoas e assim impor limites e evitar práticas abusivas que podem vir de diversos lados. Nos sobrecarregamos de forma desumana tingindo atingir a todos, esquecendo que nos colocar em primeiro lugar não é egoísmo, mas é inclusive preservar nossa saúde mental e física.

Escrevo esse texto pois ando cansada tanto das relações pessoais, quanto das formas como me sinto sempre sugada em tudo que diz respeito a relações pessoais. Faz parte de um processo de auto-humanização começar a ter relações que não me coloquem num lugar de doação em que não posso pedir nada em troca nem que a troca seja a paz de não ter que preocupar com tudo a todo momento.

Também faz parte da força desumana que achamos ser uma proeza aceitar que esteja nas nossas costas tudo e todos, quando na verdade é impossível dada a nossa condição estrutural carregar o mundo nas costas, aprender a se priorizar é um exercício de autoamor que muitas de nós não vivenciamos e não nos permitimos pois consideramos que ser forte é o mesmo que aguentar tudo, quando na verdade ser forte é também saber pedir ajuda e impor limites. Não estaria escrevendo sobre isso caso não percebesse que o que soa uma dificuldade minha, acaba sendo a realidade de muitas mulheres, que numa sociedade como a nossa se veem atarefadas mais com a vida dos outros e com suas metas para alcançar espaços insalubres que não aplicam a tolerância consigo mesmas.

Muitas mulheres têm medo de serem elas mesmas, nas suas subjetividades e individualidades. Muitas mulheres se sentem culpadas por tudo e por todas, até mesmo aquelas que fazem parte de movimentos sociais. Muitas estão lutando, sobrevivendo e morrendo para terem uma vida digna. São muitas mulheres e não posso achar que falo por todas, mas falando de mim mesma descobri o quão isso é importante para que outras falem de si.

Mulheres  precisam de paz para serem o que elas quiserem ser, mesmo que isso incomode outras pessoas. A gente precisa gozar da experiência da liberdade, do perdão a nós mesmas e do autoamor. E eu acredito que muitas coisas por si só, não contemplam mulheres, por isso precisamos viver a força de nos libertar das culpas que carregamos e um primeiro passo é falar disso, então quais são as culpas que você carrega por ser mulher? Não tenha vergonha de expô-las, a vergonha e a culpa trabalham juntas para que nem sequer falarmos e denunciarmos as violências que nos cercam. Não é normal sentir culpa por sermos como somos. Não é normal nos sentir péssimas com os limites que nos fazem humanas.

 

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.