Qual é a dificuldade do brasileiro em fazer homenagens?

Em tempos de ascensão do conservadorismo e de uma linguagem e conduta imoral dos nossos representantes públicos, como um todo, estamos carentes da discussão sobre ética, limites e bom senso. Os tempos são tão surreais, que até mesmo aqueles que defendem pautas semelhantes às nossas optam por atitudes sociais sempre prevendo que o choque irá produzir reação. E na era da linguagem pela imagem, tudo é urgente, tudo é para chocar, tudo é para viralizar! Entretanto existe uma responsabilidade sobre a imagem que produzimos e veiculamos para o mundo, pois não há fronteiras nas redes. Estou falando isso, claramente me referindo ao último desfile do estilista Ronaldo Fraga no SPFW, em que ele optou em duas de suas representações, trazer a figura de Marielle Franco.

 

Marielle Franco, feminista, favelada, mãe, negra, bissexual, vereadora, mulher, que foi assassinada brutalmente no dia 14 de março de 2018, depois de sair de um debate sobre a realidade de mulheres negras nesse país. Seu assassinato, segundo as investigações possuiu motivação política e está ligado às milícias brasileiras, que estão intrinsecamente relacionadas a políticos poderosos. Logo, um crime planejado, uma execução.

 

Então, é por esses motivos e tantos outros, que somados ao contexto que estamos inseridos e por sua carreira política com inúmeras contribuições na luta por direitos humanos, que Marielle se tornou um símbolo para muitos. Ela representa o que não podemos esquecer e de como precisamos cobrar, não só pela solução desse crime, mas também para que a sociedade nos veja como HUMANOS, mesmo após a nossa morte.

 

Sapato com um alvo no rosto de Marielle chamou atenção na São Paulo Fashion Week, no último sábado Foto: Divulgação / SPFW

 

Diante disso, a representação feita por Ronaldo Fraga, em seu desfile com tema “Guerra e Paz“, foi no mínimo controversa e suas atitudes também. Ao optar por representar o rosto de Marielle num tênis, com um alvo na cabeça, e depois sua face bordada em uma camisa em que tiros também faziam parte do bordado/composição. O estilista sem prévia autorização da família, nos fez lembrar do assassinato de Marielle, de forma que foi difícil entender se era una denúncia, ou apenas um fetiche pela representação da violência e criação de imagens que chocam, em cima de uma mulher que é tão significativa para mulheres e negros brasileiros. Posterior ao desfile, foi declarado que nenhum familiar de Marielle havia sido consultado previamente sobre tais representações, diferente do filho de Portinari que concedeu autorização prévia pois foi comunicado antes da produção das peças. Logo, mesmo num desfile que se propunha uma denúncia referente a realidade que compreende o racismo brasileiro. É inegável, que Ronaldo Fraga e sua equipe não acharam que fosse necessário o mesmo cuidado com familiares de Marielle, em sua maioria negros, que tiveram em relação a família de Portinari.

 

Ele pode até alegar que não foi por isso, mas por usar o trabalho de Portinari em suas estampas. A questão é que a imagem de Marielle não é de cunho público, e numa representação que causou mal estar para familiares e foi compreendida por eles como desrespeitosa, é inegável que houve uma sucessão de erros, equívocos e projeções de como esse sistema sempre funciona, produzidas por quem diz ser agente de crítica ao sistema. Diante disso é inegável discutir a dificuldade que brasileiros vêm mostrando em fazer homenagens dignas e respeitosas para com figuras como Marielle, ou tragédias como a dos 80 tiros que atingiram o carro de Evaldo Rosa, ceifaram sua vida e traumatizaram toda sua família. Fato que por mais traumatizante que tenha sido, em menos de um mês, surgiu nas redes sociais uma camiseta em que 80 círculos pintados a mão criaram uma estampa. Protesto? Sadismo? Oportunismo? Tantas perguntas surgem quando nos deparamos com isso. O que não compreendo, é de onde essas ideias surgem e quem elas afetam?

 

Peças utilizadas durante a São Paulo Fashion Week, no último sábado; roupas não serão comercializadas, e serão entregues à família de Marielle Franco Foto: Divulgação / SPFW

 

Se as vítimas se sentem PÉSSIMAS diante do seu protesto, e ALGOZES ou PRIVILEGIADOS sequer são incomodados, a fórmula não estaria errada? Não tenho dúvidas que moda é uma linguagem e pode ser usada como forma de protesto. A questão, é que o que as pessoas compreendem como protesto, também precisa passar por um crivo e debate ético, sobre limites, intenções e linguagens.

 

 

Roger Waters quando veio ao Brasil e homenageou Marielle Franco em seu show, não teve dificuldades NENHUMA de entrar em contato com TODOS os membros de sua família, tampouco de usar uma representação que não fosse violenta, pois a memória de Marielle não pode ser resumida ao que fizeram com ela, e sim com as escolhas que ela fez em relação a si. Um homem que não é brasileiro, que veio para um show no país, e conseguiu rapidamente respeitar a memória, denunciar a violência e respeitar familiares, sem ultrapassar nenhum tipo de limite ou querer ser ele protagonista dessa situação. Então, qual é a dificuldade do brasileiro em fazer isso?

 

As escolas de samba deram um show de horrores no carnaval nesse sentido, optaram ora por uma parte da família, ora por outra. A Mangueira que fez a homenagem mais significativa, citando Marielle no seu samba enredo e em bandeiras verde rosas com seus rosto, cujo as imagens ganharam as mídias do mundo, optou por chamar a esposa de Marielle, Mônica Benício, e seus colegas e amigos de partido. A filha, Luyara, lamentou ficar de fora do desfile em entrevista. O absurdo, é que após críticas sobre essa ausência terem sido levantadas, o vice presidente da escola deu uma entrevista em que dizia:

 

Sendo assim, um homem estranho, que provavelmente não conheceu Marielle Franco em vida, definiu quem era sua família. E para piorar, ignorou que se esse critério fosse o de fato usado, sua filha Luyara Santos teria que estar no desfile, pois ela morava com Marielle e Mônica. A questão é que os absurdos são tantos, que é possível que pessoas estejam homenageando Marielle sem ao menos terem feito uma pesquisa prévia sobre sua realidade, história, pensamentos e memórias. Coisas foram escritas, pensadas, executadas por Marielle, e seria justo, e coerente que diante da necessidade e urgência que temos em homenagear essa mulher, que nós tenhamos responsabilidade em procurar o que ela produziu, em perceber que respeitar sua família e seu legado, são o MÍNIMO.

 

Então diante disso, o desfile de Ronaldo Fraga só se soma às bolas foras desse país que usa imagens, sem entender a profundidade do que elas significam. O fato de ele não ter consultado antes nenhum familiar incomoda profundamente, dado que seus entes perderam Marielle pouco mais de um ano e não podem ser “surpreendidas” nas redes sociais com imagens que são controversas e de ampla interpretação, podendo ser consideradas uma reafirmação da execução. Nenhum familiar da Marielle ou de outra vítima dessa estrutura genocida pode ser “surpreendido” em nome do que a gente acha que é protesto. Arte, moda e militância precisam ser éticas, ainda mais em tempos que o sistema banaliza e comercializa tudo.

 

São tempos surreais esses que temos que defender o óbvio, e que mesmo após a morte, parece que negros continuam em eterna disputa pelo respeito, e isso sem dúvidas, perpassa pela forma como consideramos ou não, quem foi diretamente afetado pela sua ausência.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.