Quem nunca cuidou da vida alheia?

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As vezes eu paro e fico observando as pessoas ao meu redor. Como se eu não estivesse ali. Como se fosse  espectador da realidade num plano paralelo. E não preciso de nenhum recurso para entrar em transe. Logo concluo: o ser humano é mesmo uma pira. As vezes tomar um cafezinho ouvindo a conversa alheia do casal que está na mesa ao lado, ao invés de infame pode ser revelador. Você descobre como é linda a cumplicidade de um casal gay em suas paixões literárias. Quantas risadas e trocas de ideias legais. Como são cúmplices. Dá vontade de puxar a cadeira e entrar na conversa – mas seria desagradável, concluo.

“Para se conhecer qualquer pessoa, é preciso ir-se chegando a ela devagar e com cautela, para evitar equívoco e preconceito, coisas bem difíceis de corrigir e reparar depois”
Dostoiévski

Observar o cotidiano humano é lindo e também inquietante. Faz a cabeça não parar de pensar. De querer saber por exemplo, por que um casal sai para jantar e não troca uma só palavra durante a noite toda? Por que não se olham mais? Será que o amor acabou e eles não perceberam? Brigaram no caminho e chegaram irritados ao restaurante?  Percebe como? Observar a vida alheia me enche de ‘por quês’. Já parou para pensar por que a gente entra no elevador e logo se arruma em frente ao espelho, ao passo que tem gente que nem se olha? Eu fico me  perguntando: autoestima ou não quer se encarar no espelho na frente dos outros? Vergonha ou alterego?
Tem gente que disfarça e checa o smartphone só para não falar um simples: bom dia. Taí um aparelho que faz a gente se tornar invisível quando é conveniente. Já experimentei isso e funciona mesmo. Aprendi observando. Aliás, observar o ser humano como se você não fizesse parte desta espécie pode ser um grande exercício de aprendizado. Aguça os sentidos e a percepção sobre o outro e isso faz a gente aprender a se compreender no meio de tanta loucura. Uma de minhas últimas observações foi ontem numa biblioteca na Avenida Paulista. O cara lia  Dostoiévski  e a menina Martha Medeiros. Eles pareciam não se conhecer, ela se aproximou, pouco depois de observar bem o bumbum dele e perguntou sobre sua leitura. Ele sorriu, fitou o livro que ela estava lendo e começaram a conversar. Eu estava atrasada e não deu para acompanhar, mas acho que o final foi feliz. Bibliotecas são lugares estratégicos para se encontrar um amor. Já havia visto esta cena outras     vezes em minhas observações.
Observar o cotidiano é paranóico e vicia. Mas eu observo sem moderação. Faz a gente se conhecer também e pensar mais sobre o outro. Experimente.

Viviane Duarte

Fundadora

Jornalista e Fundadora do Plano Feminino. Sua paixão está em criar estratégias que inspirem e gerem conexões com propósito por meio de conteúdos e projetos especiais que promovam a igualdade de gênero e o empoderamento feminino na publicidade e sobretudo, na sociedade.