Religião é arma. Fé é resistência. Política é oportunidade

Em um Estado que se pretende laico, a religião tem ganhado status decisivo na política. Apesar de não seguir nenhuma religião específica, considero que é impossível não levar essa informação em consideração. E não é à toa que muitos candidatos oportunamente reivindicam Deus em seus discursos.

Deus, família e nação. A história nos mostra que momentos de crise tendem a reforçar discursos inflamados sobre a importância de se fortalecer essa tríade. Importante destacar que ela fez parte do centro de campanhas de homens como o ditador nazista Adolf Hitler, por exemplo.

Hitler, na Alemanha arruinada do pós-guerra, representava a esperança pela novidade e a promessa de consertar tudo aquilo que estava errado. Católico a vida toda, em certo ponto ele acreditava estar agindo pelo Criador Todo-Poderoso. Ele dizia em público ser um seguidor de Cristo e ainda hoje muitas pessoas acreditam que o Holocausto foi feito em nome do Cristianismo.

Para não se alongar muito, o que quero trazer com esse resgate histórico é que discursos de ódio não começam sendo claramente de ódio. Eles se diluem de outras formas e ganham espaço no inconsciente coletivo quando a decepção e o medo se instauram. São ideias que são propagadas e disseminadas coletivamente pouco a pouco até se transformarem no “monstro invisível”.

Para isso, primeiro é criado um inimigo comum. E depois o desespero coletivo faz o resto. A onda de ataques fascistas que vêm ocorrendo no Brasil nos últimos dias é o exemplo perfeito. O inimigo comum é aquele que ousa se destacar da ideia de unidade. Ou seja, aquele que difere, que passa a ser considerado aquilo que “desvirtua”.

 

 

As religiões hegemônicas ao longo da história foram importantes instituições de propagação dessas ideias, já que é neste lugar de aconselhamento que elas conseguem influenciar seus fieis. E as instituições nem sempre defendem seres humanos, elas precisam proteger antes de tudo sua própria sobrevivência. As pessoas são meros instrumentos.  

O discurso de manutenção da família e de unidade da nação cresce através dessas instituições. Não que isso seja ruim, mas é que por trás desse discurso há na verdade uma ideia única de nação defendida, aquela em que as diferenças são diluídas em nome do todo.

“Deus acima de tudo. Nação acima de tudo”

Por trás da ideia do todo, há a invisibilização dos mais vulneráveis, do que é “diferente”. Um todo regido por um Deus único, uma família única. Imagino metaforicamente uma multidão sendo pisoteada em nome de um “bem maior”. Um Deus e uma nação acima de qualquer coisa, passando por cima dos menores, dos menos privilegiados.

Para explicar, usarei o exemplo prático perfeito, acontecido comigo mesma nos últimos dias. Uma ex-colega de escola chamou mulheres que dependem de políticas de transferência de renda como o bolsa-família de “mulher de bandido”. Ora, às custas de ofender uma pessoa socialmente desfavorecida, ela se viu no direito de agredi-la sob a justificativa de defender seus ideais políticos – que obviamente caminham na direção contrária da oferta de subsídios contra a desigualdade social.

Analisando a forma como vem se desenhando o processo eleitoral no Brasil, me peguei pensando no porquê desse discurso seduzir tantas pessoas, ainda que sob o álibi perfeito da ideia de “Deus acima de tudo. A Nação acima de tudo”. Mesmo aquelas que não fazem parte das religiões hegemônicas, como a católica e hoje as cristãs/evangélicas/neopentecostais (há uma infinidade de congregações).

Um incômodo antigo, no entanto, me impulsiona a escrever este texto neste momento. Vejo que muitas pessoas religiosas têm facilidade para entender o conceito de caridade, mas dificuldade de entender a justiça social. E para mim, soa hipócrita lutar pela própria ascensão e prosperidade para ser uma pessoa caridosa e não lutar para que o objeto de sua caridade não precise de sua ajuda.

Foi aí que me deparei com o discurso do Padre Júlio Lancellotti, coordenador da pastoral da rua, em uma entrevista concedida ao canal GNT. Ele explica que caridade vem de caritas e significa amor. “Nós gastamos o conceito de caridade e caridade passou a ser dar pro outro aquilo que você não quer (…) mas a caridade tem uma dimensão política, uma dimensão comunitária e pessoal. A caridade não pode ser ‘eu dou pro outro meu sapato velho’, mas eu trabalho por uma sociedade em que ninguém precise pedir um sapato”.

Isso para mim é perfeito e explica meu incômodo. Não faz sentido instituições religiosas que gritam pela prosperidade de seus fieis, mas ao mesmo tempo não lutam por direitos das minorias (aqui cabe explicar que o conceito de minorias sociais não se aplica ao quantitativo de pessoas – já que muitas representam a maioria – e sim aqueles que são socialmente mais vulneráveis).

 

Também não faz sentido que apoiem candidatos declaradamente opostos aos direitos dessa “maioria minorizada” da população. Mas aí é que vem a questão: instituições são empresas. Fé é outra coisa. Humanidade também.

 

Conversei com algumas pessoas sobre o assunto para obter outras perspectivas religiosas sobre o tema. O jornalista Túlio Ceci Villaça é espírita kardecista. Constituiu o que se convencionou chamar de família tradicional brasileira – casado, uma filha. Ele considera que o espiritismo no Brasil é um movimento conservador. “Hoje, embora haja uma leitura do espiritismo com viés social, a maioria dos espíritas prefere a pauta liberal à brasileira (liberal economicamente e conservadora nos costumes), isto quando se interessa efetivamente pela política”, diz.

Para ele, caridade, entretanto, é uma ação individual que não tem o objetivo de mudar uma realidade. E considera abomináveis as propostas de candidatos que retiram direitos das minorias sociais – historicamente desprotegidas e vulneráveis. Sobre religiosos no poder, Túlio destaca que não devemos considerá-los religiosos. A bancada evangélica propriamente não pode ser chamada de religiosa, é de empresários da religião”, afirma.

Trazendo a questão para o contexto político atual, em que se acirram posicionamentos políticos antagônicos com propostas de governo bem divergentes, a jornalista Marcela Lisboa, que é nascida e criada na Assembleia de Deus, de tradição pentecostal, considera que o problema foi termos subestimado o poder das igrejas.Creio que a igreja por muito tempo foi idiotizada, infantilizada e subestimada pelas tradições de esquerda”.

Marcela, que já saiu da Igreja e conheceu outras religiões, entre elas o Budismo e o Candomblé, diz que é provável que a gente entre agora em um período de queda de impérios e ascensão de outros. Creio que o mundo como nós conhecemos está com os dias contados. E confesso que enquanto mulher negra eu dou graças por isso, pois a Igreja sempre foi racista. A base dela é racista. Jesus é branco de olho azul. Ela foi a primeira instituição aqui no Brasil. Existe uma contradição entre o que Jesus viveu e o que os corações inflados por anos estão clamando… justiça”, pontua.

Na avaliação dela, a caridade está para o indivíduo, assim como a justiça social está para o coletivo. Acredito na construção de paz, justiça e alegria e que nenhum exista sem o outro. Creio que eles caminham juntos. Ou deviam”.

Rebecca Maciel também é evangélica, mas presbiteriana por tradição familiar e hoje frequentadora da Igreja Cristã Carioca. De acordo com ela, estamos em um grande debate de partidos e ainda não nos aprofundamos em propostas reais, engajadas e de manutenção da democracia: a identificação (das pessoas religiosas com as pautas não-progressistas) não é religiosa, é moralista. Porque claramente existem candidatos que tendem a focar mais na fé. A questão é que a pauta moralista está mais importante do que temas sobre fé nas igrejas”.

E se nas igrejas cristãs evangélicas o avanço dos ideais que excluem nossas diferenças de raça, gênero, sexualidade, ganharam força, em outras que já detiveram o poder hegemônico nestas terras, como a Católica, estes discursos têm sido relativizados pelo próprio Papa Francisco, que já identificou que eles afastam os jovens do caminho cristão e colocam a própria juventude em risco.

Uma das defesas mais recentes do pontífice foi contra programas de governo pró-armamento. “Rezemos para que no mundo prevaleçam os programas de desenvolvimento e não aqueles para os armamentos”, publicou no Twitter.

A cineasta Paula Lagoeiro, católica, diz estar passando por um momento de crise com a Igreja, já que apesar dos esforços do papa, as missas têm demonstrado um retorno a um conservadorismo ideológico que ela considera nocivo e contraproducente.

Sobre o cenário político, que também atravessa a mesma onda, ela crê que a polarização tem criado verdadeiros ataques. “Muitas das pessoas mais enfáticas nem sabem as pautas de seus candidatos ou plano de governo, somente as áreas de ataque. (…) Como as pessoas ficam confortáveis em saber que há milhões de brasileiro na pobreza? Como ficam confortáveis em ver grupos de pessoas serem diminuídas, perseguidas até mortas por sua cor, gênero ou orientação sexual? Jesus sempre destacou o amor como principal caminho para Deus. A-M-O-R!  Espero que o amor vença o ódio”. 

 

Paula Lagoeiro e família no batizado do pequeno Otto.

A engenheira Daniely Barbosa, também católica, demonstra decepção. As igrejas deveriam manifestar preocupação com esse discurso que gera ódio, faz apologia à tortura, à violência, armas e à pena de morte e vai de encontro totalmente aos ensinamentos religiosos, ao respeito ao próximo, à convivência democrática, ao debate plural. Fico envergonhada e revoltada ao ver um sacerdote católico declarando abertamente apoio a este homem à revelia de todas as orientações da CNBB, do Papa Francisco e da Doutrina Social da Igreja. Logo vejo que nada aprendeu em sua trajetória sobre o projeto Libertador de Jesus Cristo”.

Projeto esse, que para Daniely não pode estar desvinculado da caridade: Para um cristão, a vivência da caridade e a promoção da justiça social devem ser consequência do seguimento de Cristo, é um dever de caridade e de justiça ter uma preocupação ativa de tentar melhorar a condição humana no mundo. A caridade cristã só é verdadeira se acompanhada pela preocupação com justiça social. O futuro do país depende da nossa opção em defesa do que é justo, do que é melhor para o coletivo, para o bem comum. Espero que as pessoas consigam compreender os projetos que estão em jogo e fazer escolhas lúcidas na eleição que se aproxima”.

 

Daniely Barbosa na Jornada Mundial da Juventude, um dos maiores eventos católicos, em Madrid.

Resistência na ancestralidade

As religiões de matrizes africanas são conhecidas pela resistência diante de todas essas hegemonias. Afinal, entra governo e sai governo, o racismo forjado na perseguição religiosa permaneceu constante. Portanto, era de se esperar que nessas religiões, encontraríamos um movimento contra qualquer projeto de governo que tornasse invisível esses espaços de re-existir dessas identidades, correto? Infelizmente não.

O bailarino e coreógrafo Rubens Barbosa, homossexual e umbandista, contou que muitos de seus colegas de terreiro não entendem as pautas progressistas como algo que poderia estar vinculado à proteção da sua forma de fé. É contraditório, mas cada vez mais comum. O sentimento coletivo é de desamparo e medo. E o medo é um lugar vulnerável. É fácil manipular uma mente com medo.

Para Rubens, estamos atravessando um momento em que há falta de amor. E aqui voltamos à caridade. Rubens acredita que caridade é amor. E eu, que aqui escrevo, complemento: onde há falta de amor, há incapacidade de empatia. E por consequência, adoecimento coletivo. Homossexual, ele explica que é desolador não se sentir amparado e representado enquanto cidadão. “Não entendo como chegamos a esse estado de ‘desumanização’ (…) sendo bem honesto, me sinto temeroso quanto ao futuro. Não consigo fazer uma projeção de dias melhores para os próximos sei lá quantos anos, mas minha religião me ajuda a ter fé, lucidez e principalmente me fortalece para que eu consiga mudar mesmo que minimamente a vida de alguns. Isso me traz alegria”.

A alegria é um sentimento que muitos buscam resgatar através da espiritualidade. E em religiões de raízes negras, ela está inclusive na representação das entidades, dos orixás. No Candomblé, por exemplo, a religiosidade coexiste com a festa, a cor e a música.

Porém, como manifestação contra-hegemônica, essa alegria, esses momentos subjetivos de cada manifestação religiosa, também podem estar sob ameaça. E não é de hoje. Se o Candomblé resiste atualmente é porque por muito tempo foi preciso lutar por sua manutenção, que foi feita basicamente através da oralidade de seus praticantes.

Contudo, no ano passado, uma onda de ataques ocorreu em terreiros de Candomblé do Rio de Janeiro. A banalização dessa violência foi tamanha que os grupos que orquestraram os episódios filmaram a depredação destes espaços e espalharam ameaças pelas redes sociais. Desde então, vivemos em constante status de terrorismo religioso. O terreiro que cheguei a frequentar por algumas vezes fechou.

Destaco aqui a contextualização feita pelo Babalawo Ivanir dos Santos logo após os ataques. Ele citou, por ocasião do debate que antecedeu a 10ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, uma passagem bíblica em que Jesus Cristo cruza com um cego. “Ele, então, cospe no chão, faz um barrinho, coloca no olho do cego e o manda encontrar um sacerdote. E chegando lá, o cego está enxergando. O que seria isso? Religião, mística, magia? Existe um período anterior e posterior. E a partir de toda uma construção posterior, que tem a ver com dominação e colonização, você tem uma visão preconceituosa e racista com aquilo que é diferente”. Ele concluiu mostrando que tudo isso interferiu no próprio conceito de humanidade, com um único referencial humano possível (homem e branco).

 

 

O candomblé, justamente por preservar mais tradicionalmente as raízes africanas do que a umbanda, está ainda mais na mira destes ataques de intolerância. A atriz Carla Laiene é candomblecista e avaliando essa onda de intolerância, ela conclui que as ferramentas de opressão apenas se modificam. De alguma forma, sempre vai haver interesses maiores para a manutenção da desigualdade social”, ressalta.

Para ela, que apesar de considerar que ser de orixá deveria sugerir, antes de tudo, empatia com o outro, consciência social e resistir ante às desigualdades, nem sempre é o que se vai encontrar por aí. “Quando política caminha com religião, o resultado é historicamente desastroso. Ao contrário do candomblé que é uma religião política por conta da resistência, as religiões cristãs têm historicamente apoiado o genocídio étnico, racial e religioso por muitos anos. Na minha opinião, as religiões precisam ser reformuladas como o Congresso e novos pensadores precisam assumir suas diretrizes, para que os assuntos sejam debatidos com responsabilidade, sem ignorar a história de opressão e apoio ao fascismo. Enquanto ignorarem a história, os mesmos erros serão reproduzidos ciclicamente”, finaliza.

 

Carla Laiene no seu ilê, como é chamado o templo de culto do Candomblé. Fotógrafo: Richner Allan

Veja o que comentaram pessoas de outras religiões:

Mayara Lopes, umbandista

“Eu espero, de forma desesperada, que consigamos sair desse mar de ódio e cegueira que tomou conta de tudo. Espero que o amor, da forma mais linda, seja a união de todos de volta (tô sonhadora, né?), espero que Deus em sua infinita bondade, nos ajude a sair dessa.

Não acho que minha religião me ajude a pensar na realidade política, meu universo umbandista é pequeno e limitado demais. A minha própria mãe de santo acredita que bandido bom é bandido morto, então meu desgosto é profundo por tudo. Acredito que a Umbanda, na sua forma mais bonita, me ajuda a acreditar no amor, e acreditando no amor acima de todas as coisas me faz ver o mundo diferente do que muitos religiosos hoje estão pregando por aí”.

Emily Anacleto, cristã evangélica

“O candidato que está à frente não me representa como cristão que está na mídia. Para o futuro eu espero no mínimo por dias melhores, eu como cristã sei que neste mundo teremos aflições, mas temos que ter bom ânimo. A Bíblia me ensina isso!”

Thamara Figueiredo, cristã evangélica

“Como cristã, não tenho possibilidade de aceitar políticas que atinjam as minorias diretamente. Que retirem seus direitos. Seja qual minoria for. O meu Mestre não veio aqui para acolher ricos e poderosos. Na verdade, Ele mesmo era um homem periférico e de cor. Andou o tempo todo com aqueles que eram considerados escória pela sociedade da época.

Ele foi o cara que disse que era mais fácil entrar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico no Reino de Deus. Jesus quebrou MUITAS regras para mostrar que as pessoas importam, que o amor importa. Seguir a Cristo e concordar 100% com esse sistema capitalista, que também é racista e misógino, não faz nenhum sentido”.

Ingrid Rosa, messiânica

“Tem um ensinamento de Meishu-Sama (fundador da Igreja Messiânica- IMM) Mistério do mundo espiritual que diz “O que mais existe no mundo são pessoas corruptas que, por ambição desmedida, aborrecem, fazem sofrer e levam os outros à desgraça. Isso é produto das ideias materialistas, que negam o invisível, mas, analisando do ponto de vista espiritual, é algo realmente terrível. Como tais pessoas fazem os outros sofrer, os que são atingidos ficam cheios de rancor, de ódio por elas e procuram retribuir-lhes o mal que receberam”.

Está instaurado o círculo vicioso que vivemos atualmente. A chave para mudar isso tudo, a meu ver, é despertar o homem para sua essência divina e despertá-lo desse egoísmo. A união espírito-matéria é a nossa verdadeira essência”.

Ellen Paes

Ellen Paes é jornalista, diretora e roteirista de Audiovisual. Em 2017 lançou o documentário #EuVocêTodasNós, onde figura como personagem e codiretora. Também em 2017 participou da construção do relatório sobre violência de gênero na internet da ONU e fez parte do primeiro Catálogo Intelectuais Negras, que reúne mulheres negras de destaque em atividades intelectuais de todo o país. Neste momento, Ellen atua como repórter, apresentadora e roteirista em um telejornal do Canal Saúde.