Respeitar os mais velhos, não impossibilita de discordarmos deles

Nas últimas semanas, a cantora Gaby Amarantos, em suas redes sociais, manifestou o descontentamento com mais uma fala violenta camuflada de “piada”, dita por Silvio Santos em rede nacional no seu programa dominical. Silvio Santos dessa vez teria voltado na tecla da gordofobia e dito que Preta Gil estava mais gorda que na sua última aparição em seu programa porém, mantinha o rosto bonito. Diante disso, Gaby Amarantos escreveu em suas redes:

 

 

O que Gaby disse não tem nada demais, inclusive a crítica não é a figura de Silvio Santos, mas ao que ele representa em suas falas agressivas que são perpetuadas e idolatradas por uma série de brasileiros que acham que tudo é uma piada e que a agressiva é a Gaby Amarantos por não “rir” disso. E como já era de se esperar, infelizmente, pessoas saíram em defesa de Silvio Santos e passaram a tentar silenciar Amarantos de forma violenta ao menosprezar seu direito de fala. Num dos textos mais chocantes feitos numa página conhecida por seus conteúdos progressistas, um artigo dizia:

 

Acontece que Silvio Santos chegou à televisão antes do empoderamento das minorias.

Todo mundo tem um tiozão, uma tia velha ou uma avó que não conseguem desconstruir preconceitos antigos porque o mundo que temos construído é novo demais aos seus olhos: natural e humano.

 

Minha reação para esse texto é a mesma de quando usaram O MESMO argumento para justificar os assédios do ator José Mayer:

 

 

Eu sinceramente não concordo com falas redutivas como essas que no fundo dizem: Respeitem os mais velhos, são tempos diferentes.

 

Como se respeitar os mais velhos, fosse não poder discordar deles e tencionar em relação aos preconceitos por eles reproduzidos. Podemos e devemos respeitar toda e qualquer pessoa, contudo se estamos querendo uma nova perspectiva de vida e de sociedade, porque essa nos oprime, não será na base das flores que vamos conseguir isso. Respeito é bom, afeto é ótimo, mas luta social e uma nova perspectiva de futuro se faz na disputa e no conflito.

 

Veja que sequer estou falando aqui de conflito físico, mesmo que eu não coloque esse no limbo do inaceitável para nossa sobrevivência, estou falando do conflito de ideais. Essa disputa precisa e será feita, e não deveríamos mais permitir que mulheres negras fossem silenciadas nessa história, como Gaby ainda está sendo.

Além disso, ódio para com mulheres, negros, gordos, lgbts, não é questão de idade, é ódio às minorias e estruturalmente falando morremos por isso. Logo… logo temos que responsabilizar comunicadores pelos discursos que eles reforçam em rede nacional, independentemente da sua idade.

Silvio Santos tem uma rede de tv em suas mãos e muita influência, ele sabe disso. E sabendo, faz uso desse PODER para perpetuar a estrutura que nos exclui. Então, por que esperam o nosso silêncio? Por que até mesmo uma parcela dos ditos “progressistas” querem fazer do silêncio nossa verdade, quando historicamente ele nos é imposto? Deveríamos ser a vanguarda na busca por um novo “jeito de ser/agir/pensar” e para isso não podemos proteger jeitos retrógrados de se manter PODER.

Mas, para isso começar, a gente precisa urgentemente amadurecer e parar  de confundir que discordar da fala e atitude de alguém, é ODIAR e desrespeitar essa pessoa.

 

Discordar é saudável, construir seus argumentos é necessários, e numa democracia o que se espera (ou se esperava) é que as pessoas possam manifestar suas opiniões livremente.

 

Entretanto, é preciso deixar claro que opinião é diferente da fala de Silvio Santos ao chamar uma pessoa de gorda, ou das atitudes de José Mayer ao assediar uma funcionária subordinada a ele. Isso é demonstração de poder de gênero numa sociedade machista, em que homens (em especial brancos) têm total liberdade para manifestar seus ódios publicamente.

Dito isso, só consigo lembrar dos momentos que passava com meu avô, um homem que me ensinou muitas coisas na vida, mas que não deixava de ter suas falhas assim como todo e qualquer ser humano. Lembro que meu avô me contava muitas histórias envolvendo as questões raciais. Logo, sendo um homem negro, eu imagino que essa era a forma dele me passar o que acreditava, mas hoje em dia, sendo crítica, lembro de como meu avô se incomodava com a figura da Glória Maria. Segundo ele, ela era uma “mulher arrogante”. Acho que se ele estivesse vivo eu teria que explicar o que hoje me é muito claro: que mulheres negras quando ocupam espaços de visibilidade, poder e/ou voz, são vistas sobre o limbo da arrogância, afinal elas “deveriam estar ali”. O que quero trazer com essa história, é que ele, mesmo sendo um homem negro, reproduziu racismo e machismo e que hoje eu, tendo consciência disso, continuo amando quem foi meu avô, mas tenho que ser crítica a sua postura até porque ela me afeta diretamente, eu mesma sou resumida à figura da negra metida, arrogante que não sabe seu lugar cotidianamente.

Então veja, você pode aprender com mais velhos, respeitar suas existências, inclusive amá-los, e discordar de determinadas posturas. Isso não deveria ser impedido até mesmo por algumas vertentes do ativismo. O ato de pensar diferente é importante num contexto que as opressões homogenizam e desumanizam grupos socialmente oprimidos.

Então, que discordemos e entendemos que a potência da divergência antes de tentar colocar panos quentes em tudo e qualquer coisa que mexe na nossa zona de conforto. Discordar de algumas figuras é disputa de narrativa sim, respeitar os mais velhos e a história de uma pessoa, está longe de não poder discordar.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.