Responsabilidade afetiva não é “mimimi” de mulher chata.

Alinne Araújo, de 24 anos, era uma jovem estudante que usava suas redes sociais para se comunicar e alertar seus seguidores sobre a doença que afetava a ela e tantos de nós: a depressão. No último dia 14 ela se casou consigo mesma, depois de ser deixada um dia antes pelo noivo, ganhando as mídias do país por conta desse feito. Um dia depois, no dia 15, Alinne novamente estampou as manchetes, desta vez após se suicidar. Esse caso me causou uma sensação de desespero e um mal estar por dias após sua morte, acredito que a mídia hegemônica e até mesmo alguns comentários nas redes estão tentando transformar isso em uma consequência direta dos comentários tenebrosos julgadores que Alinne recebeu via instagram. De certa forma chegando até insinuar certa culpa por ela ter supostamente se exposto demais nas redes sociais, ignorando a conjuntura de sucessivas violências que foi sofreu em poucas horas mesmo sendo vulnerável. Sim, a morte dela foi e está sendo terrível, mas não esqueçamos o quão tenebroso foi a violência psicológica fruto de uma irresponsabilidade afetiva.

 

Para algumas pessoas falar disso significa julgar o ex noivo de Alinne, que prefiro sequer nomear nesse texto, contudo, acredito que não podemos blindar homens de críticas quando suas atitudes que parecem fatos isolados são corriqueiras numa sociedade patriarcal. Até porque na fala do ex noivo fica claro que o próprio diz ter não poupando esforços financeiros sobre os cuidados com a ex noiva, assim como segundo ele, só resolveu na última hora por cancelar o noivado já que houve pressão familiar. 

 


“Só quem julgou foram pessoas que não me conheciam. Eu ofereci médico, psicólogo, ofereci coisas que eu julgava serem boas, que ela gostava, que dizia ser o sonho dela”

 

“Qual mãe, qual pai é a favor de ver um filho correndo atrás de uma mulher que falava que ia se matar? Minha mãe falava: ‘Meu filho, nunca mais te vi leve, te vi sorrindo’, porque eu sempre fui muito sorridente, brincalhão”

 

 

Simbolicamente ele se coloca em discurso, totalmente aceito pelas pessoas, em posição subalterna em relação a todos ao seu redor, a própria ex noiva e até seus familiares. Quero só lembrar que considerando as questões de gênero, financeiras e até mesmo classe e raça, se colocar numa posição de quem não é capaz de tomar decisões, não significa que você não esteja tomando. Somando isso, Alinne sofria de depressão e tinha um histórico de suicídio, estava num relacionamento há dois anos, começou a planejar por meses um casamento que era seu grande sonho e um dia antes da festa esse noivo, com quem já morava junto, sumiu para em seguida enviar por whatsapp que não gostaria mais de casar. Mesmo sendo uma jovem doente com acompanhamento constante dado sua depressão, ela teve que lidar com a negação, frustração, fim de relacionamento, uma festa cheia de amigos e familiares que tinham se preparado para aquele momento, tudo isso depois foi acarretado por uma série de comentários julgadores vindo de estranhos que acreditavam que ao expor essa situação ela queria aparecer. TERRÍVEL.

 

 

O caso de Alinne é muito sério, pois ele diz muito sobre quais as consequências que aquilo que não dizemos com cuidado com quem temos um relacionamento pode ser um gatilho ou desencadear um sofrimento em qualquer pessoa, mesmo quem não têm um quadro de depressão poderia ficar impactado com o que aconteceu com Alinne. E até mesmo lidar com a situação da mesma forma que ela. Vale lembrar que o sonho do casamento para mulheres é construído e alimentado desde nossa infância, por isso ser deixada nesse momento tem um significado muito simbólico para muitas de nós. Então quando feministas falam sobre responsabilidade afetiva ao discutir a toxicidade de algumas relações, não estamos falando de “mimimi” e sim de comportamentos que zelam pelo bem estar do outro sem deixar que tomemos nossas decisões. 

 

 

Este caso exemplifica muito bem isso, o ex noivo não era obrigado a estar com ela, por isso esta situação representa bem o que seria um comportamento efetivamente responsável. Ter responsabilidade afetiva não significa deixar de priorizar o que considera ser melhor para você, mas compreender que suas ações não são isoladas e dentro de uma série de fatores zelar para que elas sejam claras é o melhor para todos os envolvidos. Dada a intensidade o envolvimento e a forma como isso acabou, no caso de Alinne era necessário que seu ex noivo tivesse um cuidado contatando familiares e médicos visando bem estar dela psicológico.  Essa são ações que pessoas precisam tomar quando se envolve com quem sofre de alguma doença psicológica, buscar sempre a segurança por uma rede de apoio. E em outras situações, não envolvendo doenças psicológicas, o mínimo é deixar sempre claro o que você quer, não alimentando frustrações e não usando pessoas como objetos que são descartáveis. 

 

 

A clareza do que se quer para cada passo de uma relação e até mesmo para uma não relação, previne o máximo para que ninguém se sinta enganado diante dessas trocas.

 

 

O que isso não garante é que pessoas se sentirão chateadas com o término ou terão suas expectativas frustradas, a questão é garantir que isso não se dê pelo absurdo de alimentar sonhos, esperanças e desejos dos outros para nutrir seu próprio ego e exercer controle. O que vejo nas redes sociais dado a ascensão de alguns  aplicativos é que é comum uma performance para se encaixar no que o outro espera e quer, criando relações que já se baseia em nutrir uma falsa realidade. Não à toa que cada vez mais falamos da necessidade de se responsabilizar afetivamente.

 

 

Não é sobre julgamentos, nem sobre impedir sujeitos de escolherem sobre quando devem ou não se relacionar. E sim sobre humanizar a outra pessoa com quem mantemos qualquer tipo de vínculo, entendendo que não são responsáveis pelas expectativas que elas criam sozinhas, no entanto, seremos sempre por aquelas que alimentamos para satisfazer nossas próprias questões.

 

 

A história de Alinne é trágica e fora da curva, porém existe uma série de mulheres tristes com comportamentos de seus parceiros, que são inclusive blindadas de toda e qualquer crítica afinal eles “fazem muito por elas”. A sociedade como um todo tende a ignorar que o fazer material e físico, não impede inseguranças e até mesmo violências psicológicas.

 

 

Em tempos que se populariza até mesmo em mídias de massa a ideia que bater e violentar mulheres é errado e ruim, não podemos ignorar que a violência contra mulheres não vai deixar de existir, pode ganhar novos formatos já corriqueiros e muitas vezes pouco discutidos dado que a ausência de marcas para muitos é a compreensão que não existe violência… Uma falácia. Quando estamos falando de responsabilidade afetiva de quem ainda não começou, já está ou quer terminar uma relação, também estamos debatendo uma série de comportamentos nocivos que agem em sua maioria no campo psicológico. E no campo psicológico o machismo vem fazendo muitas vitórias ainda sem críticas contundentes. 

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.