Ser cadeirante e curtir um festival de música como o Lollapalloza, é possível?

Foi o que eu mais perguntei/procurei na internet nos últimos dias.

Agora, depois de ter passado pela experiência, eu digo  que sim. Antes, todos os conhecidos me desencorajaram fortemente mas, que fique claro, jamais tente sozinho, infelizmente por conhecimento de causa sei que as pessoas só pensam nessas questões quando conhecem de perto as necessidades reais das pessoas com deficiência o que infelizmente não era o caso dos produtores desse festival!

Tentaram, sim maquiar uma acessibilidade mas, no fundo, o pensamento é: se vire! A premissa de ideias e bandeiras que eles levantam caem por terra a partir do momento que você pisa lá.

A maioria das pessoas quando pensam em ir nesses locais é usar o transporte público, eu resolvi depois de muito analisar que essa não seria uma locomoção adequada já que iria encontrar muitas pessoas e uma caminhada de 15 minutos até chegar no autódromo.

O festival oferece estacionamento, mas não pensaram que se você vende, por exemplo 15 convites para deficientes é preciso que tenha 15 vagas de estacionamento, porque se não, qual é mesmo a premissa de ” prioridade” no atendimento?

Eu, inexperiente, deixei para comprar o estacionamento quase no dia, quando fui ver não tinha mais vagas!

A solução era estacionar próximo, arrumei um local 3 km do festival e chegando lá, vi que não ia ser possível ir a pé, pois eram subidas e mais subidas, a solução foi um uber que na ida foi uma beleza R$7,00 na volta R$ 25,00.

Na volta uma novela, todos os acessos fechados, policiais e produção totalmente despreparados e nem se querer se preocuparam/olharam na minha cara para abrir espaço para que um taxi fosse ao meu encontro já que eram subidas e mais subidas, continuei o caminho até que um policial visse e me ajudasse a arrumar um taxi.

A chegada no festival é  tranquila, feita através de um carrinho de golfe, daí o primeiro erro: eles te largam na entrada e você que se vire, morros e mais morros, pedras, cascalhos e grama para chegar ao palco – dei muitas rodadas e andei por horas perguntando para staffs, produção e pessoas do festival qual era o caminho por asfalto e ninguém sabia dizer –  até que encontrei um bombeiro e ele me ajudou a chegar lá, já cansada e estressada, curtir um  dia todo dentro desse local todo errado é impossível.

Perry Farrel, seu festival pode  ser tudo, menos INCLUSIVO.

Um palco megadistante um do outro e acessados pelo mato, os brinquedos eu nem cheguei perto, não consegui forças para isso, não descobri se eram acessíveis ou não, eu acredito que jamais sejam. Os lugares de comida também tem filas enormes e zero prioridade.

 

 

Agora, uma parte importante: o banheiro. Na área de deficientes tinha um banheiro QUÍMICO ACESSÍVEL, só lá ( jamais um cadeirante consegue/pode usar um banheiro desses, já que somos bem suscetíveis a infecções e esses locais proliferam isso). Duvido que não possuíam banheiros próprios que a gente não pudesse usar.

A área de cadeirante (eram 2 no mapa, na prática só fizeram uma) não comportava metade das pessoas que ali estavam, ficamos completamente amassados. Com a magnitude do festival a área poderia ao menos ser o dobro do tamanho, já que espaço tinha e deficiente também. Quando a área  lotou, eles queriam tirar nosso acompanhante de lá, agora me diga: como nesse perreio de espaço eu iria ficar sozinha?

A conclusão que eu tiro é: que só indo até lá e reivindicando a gente consegue mudanças, até porque eu paguei como todo mundo e não consegui curtir o festival, apenas um show de um dia todo de atrações que eu PAGUEI e perdi!

Se eu voltaria? A resposta é não! Se eu queria ser como todos e conseguir ir? Sim!

Meu desejo é que esse texto frustrado este ano torne-se impulso para melhorias na próxima edição.

Fabiola Pedroso

Jornalista, cadeirante budista. Inquieta, exploradora por teimosia e feliz por natureza.