Ser mulher: muito mais sobre estar sobrecarregada do que sobre força.

Annalise Keating e Olivia Pope crossover em How to Get Away with a Murderer.

 

Quando a série How To Get Away With Murder começou em 2014, a série foi um sucesso e eu fiquei extasiada com o que via.  Hoje às críticas apontam que a última temporada perdeu força, agonizando e se sustentando no talento da brilhante Viola Davis. Irônico Viola nessa posição, sendo que toda a série coloca Annalise neste mesmo lugar, a personagem é totalmente desumanizada, agredida e cobrada de uma força descomunal. Eu mesma só consegui ver até a segunda temporada pois em alguns momentos me via tão sufocada que queria entrar na televisão, abraçar essa mulher e silenciar todas as outras pessoas. Pois, NÃO É POSSÍVEL! E essa pressão toda acabou deixando o roteiro cansativo, pois no final das contas a solução de tudo era a mesma: Annalise Keating. Sobrava para ela a resolução de problemas que ela não criou, e outros personagens ficavam numa posição de eterna cobrança pelos comportamentos que foram escolhas deles enquanto adultos. Tudo isso muito parecido com outra série do universo Shonda: Scandal.

 

Assim como em How to Get Away With Murder eu não consegui ir até o final de Scandal, pois a forma como as mulheres negras são retratadas como “guerreiras” que precisam se reerguer diante de violências gigantescas, me fez não conseguir enquanto negra, ir até o fim. Para mim, Annalise Keatinge e Olivia Pope são responsabilizadas pelas ações de adultos, é parte do trabalho delas, é. Mas é claro, que raça e gênero coloca ambas numa situação de subalternidade. As personagens de ambas mesmo sem filhos, enxergam todos como seus dependentes afetivos e até se colocam numa posição de controle em relação a isso. Todavia isso nos diz muito sobre como enquanto mulheres em nossos trabalhos e relações assumimos um comportamento performático para dar conta daquilo que não é nosso e não nos serve. Afinal, quem somos nós quando nos despimos das obrigações e demandas alheias?

 

Atualmente esse “dar conta” passou a ser ressignificado como sinônimo de nosso “poder feminino”. Muitos ignoram que cunhar em mulheres a obrigação da força para sustentar vidas de sobrecarga não é nada de novo ou transgressor. Tampouco, é uma perspectiva feminista. Mas o que esperar de uma sociedade que infantiliza homens adultos, e sobrecarrega mulheres independente das nossa idade? Até mesmo homens que são desumanizados por outras questões, exemplo a racial, não sendo tidos socialmente como eternas crianças que precisam ser amparadas. Muitos desses dentro das suas relações familiares e afetivas reproduzem a lógica de sobrecarregar mulheres do seu entorno. Sejam mães, irmãs, tias, avós, filhas, mulheres, namoradas ou até mesmo colegas de trabalho. É imprescindível que para a manutenção da lógica atual de gênero esse sistema de culpa e fardo mental se mantenha. Não é estranho que estejamos todas tão cansadas, tão exaustas, tão irritadas, tão estafadas e tão deprimidas.

 

Há um pouco de Annalise e Olivia em todas nós, já que somos desenhadas para resolver as irresponsabilidades de adultos, principalmente os adultos homens.

 

Até porque é difícil sair de situações que envolvem violências que são tratadas como personalidade e hábito. Isso é o que acontece com condutas machistas de uma sociedade patriarcal, que passam muitas vezes despercebidas dado que o machismo é tão grande e violento que ações que soam menos agressivas do que de fato são, não recebem tanta cautela quanto outras. É fato, que a violência de gênero não se restringe apenas ao soco, tapa e outras manifestações físicas. Ela permeia inúmeras condutas totalmente banalizadas, por isso refletir sobre como homens (em especial brancos) são INFANTILIZADOS e PATERNALIZADOS é de extrema relevância para falar sobre CARGA MENTAL. A expressão CARGA MENTAL ganha as redes como discussão de gênero que denuncia que mulheres são socialmente sobrecarregadas por refletir, pensar e planejar até mesmo as tarefas que serão executadas por outros, na maioria das vezes homens, dentro das nossas casas.

 

Entretanto fora das nossas vidas, até mesmo com colegas de trabalho, somos colocadas numa posição que precisamos sempre corrigir até mesmo o trabalho assalariado de homens que são nossos subalternos ou chefes. No fundo, ser mulher é estar na rebarba de homens sistematicamente até mesmo quando estamos numa posição de controle e poder. E esses homens assumem sem culpa uma posição infantil que nos submete ao lugar de tutoras. Recentemente estive numa discussão em que cobrei um homem que ele assumisse uma visão adulta e responsável sobre sua própria vida e escolhas, e fui tida como “não empática”. É claro que precisamos entender que cada um tem uma história. Contudo, porque homens não querem se responsabilizar nem pelas escolhas mínimas que fazem sobre suas vidas ADULTAS?

 

Quando essas escolham falham, ou os homens não dão conta de fazê-las sem auxílio, mulheres são violentadas pela exigência de maternagem de adultos. Basicamente porque de uma forma ESTRUTURAL, a sociedade toda trabalha para compreender o lado dos homens (principalmente brancos), para defender sua integridade e até mesmo para ACOLHER eles quando se é necessário. É impressionante como muitas de nós somos alçadas ao posto de “mães” dos nossos parceiros e de ESTRANHOS, mesmo vivendo tempos tidos como modernos! Digo para alguns que “ser mãe sem ter filhos” já é exaustivo, o que imaginar das mulheres que são de fato mães e cobradas nesse lugar tanto quanto na correspondência pela sustentação de muitos homens do seu cotidiano. 

 

Nessa discussão que tive, me vi numa situação que percebi que nós mulheres somos tão educadas para zelar e administrar nossas vidas familiares, que para nós algumas coisas são tão corriqueiras que passa batido que não cobramos ou educamos homens para enxergar determinadas necessidades. Inclusive, olha o “educamos” aqui novamente, nós somos requeridas até mesmo de melhorar homens em suas condutas pessoais, mesmo em tempos de tanto acesso à informação. É ainda simbólico que assim que são cobrados para se responsabilizar pelos seus comportamentos, estes passam a se vitimizar e buscar justificativa para não agir com maturidade. E como isso é confortável!

 

Estar numa posição que o outro resolve por você, faz como que nós estejamos em outra em que vamos acumulando tarefas, ações e colocando tudo no campo do “dom” de mulheres e na falta de “aptidão” de homens. 

 

Quantas mulheres já não passaram por isso? Então, escolhemos almofadas, alimentamos o cachorro, planejamos as compras, fazemos a lista de casa, cuidamos dos familiares mais velhos, planejamos e limpamos a casa, carregamos a turma nas costas, além de disputar por salários e direitos. Só de escrever sobre já me vejo cansada e enquanto eu for mulher num mundo que entende que ser mulher é nascer com uma dívida impossível de ser paga, eu continuarei estando cansada, sendo impedida de me despir dessa performance de força.

 

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.