Ser Pobre, não te faz menos racista.

No último sábado dia 09, Anitta a cantora de maior sucesso e relevância nacional e internacional nesse país, ganhou todas as mídias após ter acusado em seu bloco, o “Bloco das Poderosas”, um homem de ser “ladrãozinho” segundo as palavras da própria. Ela justificou esse apontamento, que culminou numa prisão sem provas da seguinte forma:

 

“O último que veio aqui para roubar se lascou. Nasci pobre, estou aqui ralando. Ninguém precisa tirar nada de ninguém!”

 

Desconsiderando toda a sua responsabilidade como artista, pessoa pública, e destaque naquele momento, e do alto do seu privilégio, literalmente, ela apontou uma pessoa que foi presa e passou por um trauma, sem ter feito nada segundo a própria polícia que o liberou considerando ele inocente. O absurdo desse país é tanto, que temos um artista acusando e a polícia inocentando. É tão controverso em tantas camadas, e só evidencia que enquanto artista, Anitta não sabe da história da própria profissão, tampouco da realidade social e estrutural do país que está inserida, se mostrando arrogante e desrespeitosa em nem procurar saber quem era ele e reparar o que fez.

 

O crime desse homem até agora foi ter sido estar ali num bloco de carnaval, parece que passou anos, e o Brasil continua prendendo negros que estão nas ruas vivendo sua liberdade associada à música, dança e a cultura. Corpos negros da capoeira. Corpos negros do samba. Corpos negros pulando carnaval. Ele, um homem negro de pele escura que não sabemos o nome, apenas que teria sido o apontado por Anitta, foi levado de forma agressiva, encaminhado a uma delegacia, pois Anitta “escutou” algo, apontou “algo” e ainda construiu uma narrativa heróica em cima desse algo. Algo que foi uma suposição, só que supor que uma pessoa cometeu um crime sem saber e sem provas, isso sim é crime. Crime esse que o brasileiro adora cometer contra pessoas negras:

 

ARTIGO 340 CP: “Provocar a ação de autoridade, comunicando-lhe a ocorrência de crime ou de contravenção que sabe não se ter verificado:”

 

Pena: Detenção, de 1 a 6 meses, ou multa.

 

– Comunicação falsa de crime é crime.

 

Então Anitta, precisa rever a sua própria defesa ao dizer que sendo pobre, nunca tirou algo de ninguém. Só que agora rica, tirou a liberdade e o direito a ser considerado inocente de um desconhecido, numa denúncia que mais pareceu uma performance para ganhar visibilidade e ser notícia, do que uma preocupação de fato com o que estava acontecendo.  Mais uma vez essa artista reforçou a ideia do pobre que “enriquece” é o exemplo da ideia da meritocracia, ignorando as centenas de milhares de Anittas que ficaram no caminho quando perceberam que seus sonhos não eram possíveis num país de desigualdade social, racial e de gênero. O discurso meritocrático que a elite criou para defender sua riqueza adquirida como herança daqueles que exploraram, colonizaram e invadiram esse país, agora é absorvida por uma camada de pobres que assim que acessam um lugar de privilégio de classe, se sentem “diferenciados”, e para reforçar isso necessitam ressaltar que os “outros” se mantêm ainda naquele lugar do ERRO. A própria ainda ignorou que o ganho com seu trabalho, no caso seu cachê, passa bem longe da realidade desse país quanto a salários médios.

 

 

Numa sociedade que não existe um bem estar mínimo para todos, e que muitos estão numa posição de MISÉRIA, DESCASO e VIOLÊNCIA por parte do ESTADO, responder isso “roubando um celular”, está longe de ser um problema a ser combatido por uma artista que se julga importante para o país, a ponto de querer nos representar em outros contextos. Por um CELULAR, Anitta tirou de um SER HUMANO, a dignidade perante centenas de milhares de pessoas, o ato de ser detido é uma VIOLÊNCIA, que quando acusamos alguém sem saber, sem provas e legitimamos sua prisão, estamos cometendo indiretamente! Ela não deu o “soco”, mas disse que podia e como seria feito. Logo, cabe a ela e sua equipe a função ética e coletiva de tentar reparar isso.  

 

Contudo, Anitta tenta construir uma carreira internacional, assim como de alguma forma tentou mudar seu discurso para soar mais inclusivos nas lutas de gênero da atualidade. Parece que artistas de hoje são superficiais nas suas criações assim como nas suas visões sociais, estando sempre desconectados de tudo, mesmo que estejamos numa sociedade cada vez mais repleta de informações e de facilidade de acessos a informação em segundos. Mais do que isso, no caso de uma cantora que tem uma equipe gigantesca múltipla, que ela mesma se gaba de evidenciar, no caso de suas dançarinas. O que Anitta fez foi uma falsa acusação que além de por si só já ser uma atitude sem ética, quando avaliada do ponto de vista racial, colocou um homem negro numa situação de vulnerabilidade e violência. Até agora, nenhuma desculpa da parte dela veio, o que vimos foi uma “passada de pano” para si mesma, optando em dizer:

 

“Eu não passei a característica de ninguém, não apontei, apenas disse que havia uma pessoa roubando. Coube à polícia atuar e apurar”

 

Ignorar a situação do racismo estrutural e apontar corpos e falar de ladrão num país racista, é o cúmulo da irresponsabilidade coletiva, social estrutural. Anitta, ignora que como cidadã ela tem responsabilidade com os outros, ignora ainda mais que como artista ela tem ainda mais responsabilidade por ser uma pessoa pública! Para piorar usou sua história de escudo, como se ser pobre fizesse de alguém menos racista. Não se pode num país como um nosso “confundir” de forma desonesta as questões de classe e raça, por mais que raça esteja no nosso país relacionado com a base da estrutura econômica. Nós não podemos achar que ser pobre, faz de pessoas não negras, abertamente não racistas. Assim como é possível outras identidades raciais, não só a branca,  serem anti negros. Também é possível, que classes sociais diversas usem o racismo como uma conduta de querer demonstrar poder, ou de forma naturalizada. O racismo é estrutura complexa e estruturante na nossa sociedade, contudo mesmo assim estamos em 2019 e uma artista de alta visibilidade nacional e internacional, tem dever moral de não cometer crimes contra negros, tampouco de não se responsabilizar em nenhum momento pelo que fez, justificando seus atos e sequer procurando saber quem foi o atingido e o que poderia fazer para sanar o mal que fez a ele.

 

Anitta representa o que não deveriam mais ter nesse país, pessoas que usam o outro e o mal que causam a ele, para alavancar a si mesmos, sem responsabilidades nenhuma sobre a estrutural social da conjuntura que estão inseridos.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.