Será que o brasileiro lida bem com outras culturas?

Cultura é um contexto extremamente complexo, muito difícil de ser definido. Uma das elucidações mais genéricas sobre o termo é a formulada por Edward B. Tylor, segundo a qual cultura é “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Mesmo que o conceito seja amplo, é fato que os hábitos alimentares de um povo, fazem parte da sua cultura logo, da sua identidade.

Também é fato que a cultura de povos são distintas entre si, e ao contrário do que prega o racismo, nenhum povo e nenhuma cultura é superior. O Brasil e nós, brasileiros, somos vistos como um povo “amigo” e que estamos sempre de braços abertos para o “diferente”.

Mas será mesmo?

No dia 10 de abril foi ao ar um episódio no Masterchef Brasil que mostra totalmente o oposto. Nesse episódio foi pedido um baião de dois, prato nacional que é composto de arroz e feijão, então foi solicitado que os participantes se dividissem em equipes. No processo da divisão, a concorrente Crisleine foi a última a ser escolhida pelos seus colegas de competição, o que fez ela ficar muito triste e chorar. Fica possível ver o que narro, a partir dos 10 minutos desse vídeo:

 

 

Quando a apresentadora do programa Ana Paula Padrão percebeu o que estava acontecendo, ela começou a tentar consolar Crisleine. Foi nessa “tentativa” que Ana Paula Padrão foi até a participante que é de Cabo Verde e disse:

Tem hora, que cultura faz diferença. Você não é brasileira, talvez tenha sido isso que tenha pesado para você não ser escolhida. Não fica triste.

Crisleine respondeu dizendo que no país dela, eles fazem muito arroz e feijão e que não seria complicado para ela essa prova. O problema é que uma apresentadora como Ana Paula Padrão não deveria justificar um processo de “exclusão”, que fica explícito em ser a última escolhida pelos outros, no fato de Crisleine ter cultura diferente por ser de outro país! Será que ela não percebeu que se esse foi o motivo, é absurdo?!

Excluir alguém de outra cultura, por ser de outra cultura é xenofobia, é preconceituoso e é violento!

Mais do que isso, pressupor que por ser de outra cultura, essa cultura não teria os mesmos elementos que a nossa cultura, sem nem ao menos perguntar, é mais xenofobia. Além de tudo, é ignorante em relação ao próprio Brasil pressupor que pessoas de origem africana não possuem identificação cultural com elementos tradicionais nacionais. Se somos um país com a cultura que temos hoje, ela foi construída em cima de várias referências de culturas africanas. Logo… logo é necessário perguntar se a pessoa não sabe mesmo fazer algo, do que achar algo sobre ela e exclui-la pautada no achismo.

Não deveríamos pressupor que o desconhecido deve ser isolado e tratado com inferioridade, ainda mais se tratando de pessoas e culturas não-brancas pois, invariavelmente num país como o nosso, extremamente racista, pessoas como Crisleine que são negras e de outro país, devem passar por uma série de violências devido aos duplos marcadores. Então, não só entendo o choro de Crisleine, como sinto raiva de quem não consegue ter empatia de tentar imaginar como é ser uma mulher negra estrangeira no Brasil e ficou se referindo a ela como vitimista por ter chorado!

Já não é a primeira vez que negros quando choram nesse programa são chamados de vitimistas pelo público, entretanto, quando jovens brancos sem talento são eliminados choram, são abraçados pelos jurados e ainda recebem proposta de trabalho em seus restaurantes. Existe claramente um identificativo afetivo na branquitude, que repudia o mesmo comportamento num negro e aplaude num branco.

Outra coisa, é que ninguém questiona se Paola Carosella ou Erick Jacquin sabem fazer arroz e feijão, mesmo ela sendo natural da Argentina e ele da França. Aparentemente, o Masterchef Brasil reforça para seu público, a ideia de que pessoas brancas, de países de maioria branca, têm uma cultura superior e sabem mais do que pessoas não-brancas; tanto que asiáticos são alvo constante de preconceitos nesse programa. Recorrentemente se pede para participantes de outras origens, deixarem de fazer comida “típica” de seus países. Segundo os jurados, isso deixa eles muito “marcados” e “sem muitas possibilidades”.

Estamos falando de uma cultura inteira, algo muito amplo, como podemos julgar que não existem muitas possibilidades dentro de culturas que não dominamos? Esse pré-julgamento é pautado em mais preconceito. Contudo, ponho em dúvida dada a estrutura desse programa, do racismo e da xenofobia, que se um francês fosse participante do Masterchef Brasil e fizesse apenas comida francesa, jurados como próprio Jacquin pediriam para ele: “deixar de fazer uma comida tão marcada e sem tantas possibilidades”.

Afinal, para quem assiste como eu, é sabido que toda semana quando perguntam o que o próprio jurado francês faria, caso estivesse competindo, ele dá recorrentemente como sugestão um prato de sua cultura e todo mundo acha maravilhoso. Simplesmente os diálogos dos chefes ao longo desses anos de programa, deixaram nítido que a comida feita na França é tida como a “gastronomia legítima”.

Só que se comida é cultura, estamos falando de uma cultura ser tida como superior a outra. Se a cultura que é vista como superior é a de origem branca e europeia, isso é colonização! Por isso, venho questionando há um tempo se devo continuar assistindo um programa que menospreza tanto o diferente, usando palavras rebuscadas e a culinária para isso.

Crisleine no começo da competição teve que disputar vaga com uma coreana. Só essa seleção já me soou estranho, era como se as duas “estrangeiras” tivessem que competir para ver que cultura era melhor, e o fato de ser duas pessoas não brancas, fez parecer que só poderia ser estrangeiro não-branco por vez.

O que aconteceu é que Crisleine ganhou, mas no Twitter várias pessoas lamentaram pois a coreana iria preencher a vaga da “asiática que fala de jeito divertido”. O racismo com asiáticos no Masterchef se tornou uma constante desde a participação tão carismática de Jiang Pu, que era muitas vezes infantilizada por ser chinesa e cobrada em fazer uma comida “menos típica”. Esse pedido se estendeu ao longo das várias edições do programa, para todos os outros asiáticos.

 

 

O problema, é que parece que quando pedem para asiáticos se “abrirem para outras culturas”, não é ser asiático e fazer uma comida sul-africana, e sim, ser asiático e começar a fazer sua comida ficar ocidental e branca. Tanto é verdade que, no ano passado, Yoko, que invariavelmente foi escolhida para cumprir o papel da Jiang dessa edição, sofreu muito preconceito e a própria Paola dizia para ela que deveria “se abrir para outras linguagens gastronômicas”.

No dia 16 de maio de 2017, foi ao ar um programa em que Yuko cozinhou um Risoto de Sardinha, a prova exigiu que ela fizesse um prato com sardinha em lata, a sua proposta a  deixou entre as piores e apta a ser eliminada. No discurso, justificando a escolha dos jurados de quem deveria ficar e sair do programa, Jacquin disse:

Yuko, quando a gente quer fazer uma coisa sofisticada, a gente faz sofisticada. Você precisa começar a pensar e cozinhar outras coisas que não sejam da Tailândia, porque a Tailândia fica muito longe daqui.

Foi quando Yuko, provavelmente já cansada de ver sua cultura sendo sempre tratada como exótica, respondeu dizendo: A Itália também.

E de fato, assim como a Tailândia fica “longe” a Itália não é nenhum país vizinho do Brasil. Tampouco a França, pais de origem do Jacquin, só que duvido que se alguém usasse esse argumento com ele, o próprio não se sentira menosprezado e ofendido. Mas… mas como tudo pode piorar, o chefe respondeu Yuko dizendo:

Mas tem muito italiano aqui. Têm muito mais restaurantes italianos em São Paulo que restaurantes tailandeses né?

 

 

É evidente que a questão não é se tem mais restaurantes italianos ou não, mas que várias pessoas que fazem comida francesa, italiana, mediterrânea etc, não sofrem a mesma cobrança em deixarem sua cultura de lado para serem vistas como bons cozinheiros. É fato que a questão não é essa que Jacquin tentou justificar, e sim a imposição da cultura ocidental sobre as demais que também se manifesta na gastronomia e que esse programa continua reforçando a cada temporada mesmo com dois chefes estrangeiros entre seus três jurados.

Não estamos falando de gostos pessoais em relação a alimentação, mas de colonização, racismo e de um discurso violento que exotifica e inferioriza o outro. Eu sempre gostei de assistir Masterchef, mas já faz um tempo que venho perdendo totalmente o prazer de ver uma competição de comidas, simplesmente porque o programa parece que não é mais sobre comida e sim sobre menosprezar e gerar intrigas. O que faz o MasterChef Brasil se tornar um programa insuportável!

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.