She Gotta Have It: A vulnerabilidade não é estilo de vida

 

She Gotta Have It é uma série criada por Spike Lee, baseada no filme homônimo de 1986 também dele que foi recentemente cancelada pela Netflix. Seu enredo gira em torno da persona Nola Darling e das suas aventuras sexuais e amorosas com Mars, Greer, Opal e Jamie. Num cenário de gentrificação ela vai buscando compreensão sobre si, seus afetos e trabalho enquanto artista. Da primeira para segunda temporada temos um salto e tanto no que diz respeito ao seu trabalho, experiências afetivas e  responsabilidades consigo mesmo. Podendo dizer que a personagem Nola vai amadurecendo e nós enquanto telespectadores vamos vivenciando isso e sendo contemplados com uma história rica em personagens negros subjetivos, com estéticas tão diversas quanto suas atitudes, personalidades e escolhas.

 

Mas…. nem tudo são flores.

 

Lendo meu discurso é possível que as pessoas entendam que eu ache essa personagem incrível. Eu gosto, na verdade, de vários pontos da série e do comportamento dela que me fazem almejar para que tenhamos uma terceira temporada mesmo com o plano de cancelamento. Entretanto confesso que a primeira temporada sempre me incomodou muito, e algumas coisas seguem me incomodando. Muitas vezes, eu via a Nola num lugar de irresponsabilidades que fazia sentido para o enredo, contudo ia para alguns caminhos que me atormentam pela apresentação disso como sendo algo muito genuíno e sem problemas sérios. Afinal, tudo faria parte da “personalidade” dela enquanto personagem, que para ser fiel a realidade possui características que são humanizadas, logo não ser uma mocinha perfeita, faz sentido neste contexto. Porém Nola tem características que para alguns que assistem são tratadas como sinônimos de personalidade e não irresponsabilidade. 

 

 

Todavia, o que separa isso?

 

Signos, orixás, personagens, e às vezes os outros, usamos muitas coisas para justificar as escolhas que fazemos que afetam a nós e os outros. Nossa personalidade existe, claro. Nossas vivências também. Contudo nada justifica além da escolha individual a forma como agimos com os outros diante do que priorizamos ou não. Em She Gotta Have It vemos bons exemplos disso, Nola pode ser entendida como uma pessoa de mente inquieta, brilhante, convicta, acontece que para manter seu lugar e até mesmo sobreviver ela continua dependendo de pessoas. E muitas vezes esquecendo que precisa pedir desculpas, ou ao menos olhar para os caminhos dos outros como sendo tão ricos quanto o seu. Valorizar os outros muitas vezes significa pagar seus aluguéis em dia, quando a dona do seu apartamento é uma mulher negra como você, assim como quando sua terapeuta outra mulher negra prestando um serviço para você, precisa ser paga com dinheiro. Ou até mesmo quando sua namorada, outra mulher negra, têm uma filha com rotina e regras, sendo necessário muita responsabilidade. Afinal, assumir um relacionamento com alguém com filho requer uma seriedade sobre a relação que você constrói com esses indivíduos que são distintos e que um deles pode ter uma relação para sempre com você independente de um término. 

 

 

Por isso não amenizo as irresponsabilidades de Nola! Não consigo esquecer da cena em que Nola, com recursos financeiros destinados a pagar seu aluguel, prefere comprar uma câmera fotográfica, sabendo que de alguma forma poderá sempre recorrer aos seus pais ou pedir para pagar depois. Como se todos tivessem obrigação de lidar com suas escolhas, ou como se optar em comprar essa câmera em outro momento fosse um grande empecilho ao seu desenvolvimento pessoal que vem antes de tudo e todos. O status da série de um ideal de artista que não se responsabiliza, como se isso fosse um estereótipo a ser seguido, ignorando alguns fatores, como o fato de que na nossa atual conjuntura vemos esse comportamento se repetir como um modelo de precarização das nossas próprias vidas constantemente romantizados sendo chamados de sinônimos de uma geração.

 

O “estilo de vida” vendido por alguns “coachs” e até mesmo “inspiradores” em suas palestras é de que temos que nos arriscar pelos nossos sonhos e talentos, ignorando a vulnerabilidade que podemos nos expor para isso. Nola arrisca tudo pelo seu grande foco em ser uma artista reconhecida, porém se não fosse seus pais, amigos e até parceiros afetivos, ela ficaria em apuros em muitos momentos, especialmente no quesito financeiro. Não nos é apresentado ao longo da série como ela se alimenta, paga outras contas além do aluguel, ou compra o básico. O que vemos é ela sempre atrás de um dinheiro para pagar o aluguel e que quando o têm, muitas vezes abrindo mão em nome do seus sonhos, sabendo que seus pais sempre estarão ali para repor isso. Ao mesmo tempo que se super valoriza nesse processo, desvaloriza o trabalho de uma série de pessoas que cercam ela, entre elas sua terapeuta, que não é remunerada em dinheiro, mas em quadros, que por mais que seja seu trabalho artístico, quadros não pagam boletos. 

 

Não faz sentido que em 2019, nós pessoas negras, mulheres e todos que ainda estamos em condições de precarização sistêmica vejamos de forma inspiracional sem senso crítico esses lugares mesmo quando vindos de personagens fictícios.

 

 

Não é que Nola não tenha comportamentos reais, é apenas que se são reais, precisam não ser mais para quem vive a realidade, pois eles não deixam de ser escolhas dela diante também do outro. Ao se precarizar quando opta a não pagar seu aluguel, ela também precariza uma série de pessoas negras que depende ou é obrigada a suprir esses valores. A vulnerabilização de nossas vidas não é um estilo de vida. E para termos claro isso, precisamos criticar tanto o sistema e sua lógica neoliberal, quanto nossas escolhas individuais de romantizar toda e qualquer forma de vulnerabilidade e transformá la num estilo de vida.

 

Se em grupos de conversas com jovens entre 20 e 30 anos que faço parte vejo inúmeras críticas e inquietações, também vejo muitas Nolas acreditando que não faz mal nenhum não pagar seu aluguel contando sempre com o outro.

 

 

Um outro que também é muitas vezes vulnerável e precário no mesmo sistema. Um outro que não pode se arriscar porque cabe a ele segurar as rédeas. Um outro que é humano e possui sonhos, talento e possibilidades de experimentações, que precisam ser dadas e não tiradas num eterno sangue e suga, por aqueles que não assumirem suas próprias responsabilidades depositam um enorme peso para os que estão ao seu redor. Veja, em especial nossos próprios pais.

 

 

Segundo uma pesquisa mais da metade dos norte-americanos (53%) entre 21 e 37 anos recebeu assistência financeira de pais, responsáveis ​​ou membros da família desde que completou 21 anos, de acordo com o último Country Financial Security Index. Cerca de 37% recebem dinheiro mensalmente e mais da metade (59%) recebe dinheiro algumas vezes ao ano. E a destinação desse dinheiro vai para as necessidades básicas, pequenas e significativas, como telefones celulares, mantimentos e gás, seguro de saúde e aluguel. A vida fictícia de Nola é a realidade de muitos jovens fruto da não escolha dentro do sistema, contudo em alguns casos da dificuldade de administrar o próprio dinheiro em algumas situações como a série bem mostra.

 

A questão é que não é possível ignorar que esses pais que de alguma forma continuam tendo filhos dependentes financeiros mesmo sendo eles adultos e tendo trabalhos, que no caso são mal remunerados ou não possuem estabilidade, acabam sendo dentro desse sistema abocanhados pela cobrança de uma assistência constante. Os pais de Nola em nenhum momento dizem não a ela, tampouco priorizam seu bem estar financeiro, elas mantêm esse ciclo, assim como uma série de personagens que não cobra dela maturidade, responsabilidade e consideração, não é normal não pagar pelos serviços que consumimos, tampouco quando isso se refere ao trabalho de mulheres, negros ou outras minorias sendo nós agentes ativos e críticos de para uma transformação social. Existem muitas Nolas na vida real, muitas inclusive brancas, pessoas que precisam em algum momento entender que o neoliberalismo acabou com nossas relações de trabalho, tanto quanto ampliou a ideia de consumo. Consumismo tudo hoje em dia, até mesmo um estilo de vida que é vendido com ares românticos, que representa apenas a nossa instabilidade financeira e moral. 

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.