Sobre o direito de falar: devemos, sim mostrar a nossa opinião frente aos absurdos que nos empurram

Estamos na primeira semana de novembro. No último mês, vivemos a continuidade de construções e desconstruções do feminino no país. Nada novo até aí. O que mudou ou está mudando, é a repercussão.

Para quem perdeu, neste outubro tivemos a garota Valentina de 12 anos, que apareceu no programa de TV por assinatura Masterchef e recebeu uma onda de ofensas sexuais nas redes sociais. Com isso, a campanha #primeiroassedio do Think Olga nasceu e tomou corpo, quando milhares de mulheres e meninas relataram os primeiros abusos que sofreram, em sua imensa maioria, por homens.

Ainda, a polêmica do projeto de Lei 5069/2013 do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. O projeto tipifica como crime contra a vida o anúncio de meio abortivo e prevê penas específicas para quem induz a gestante à prática de aborto.

Além disso, obriga a mulher a comparecer a uma delegacia e ser submetida a um exame de corpo de delito para que se comprove o crime e, então, receber atendimento médico. E mais, permite que o profissional de saúde se recuse a prestar assistência e/ou fornecer medicação abortiva caso entenda que esta ação viole sua consciência.

Para encerrar e trazer um alívio, o Exame Nacional do Ensino Médio teve uma questão que citava a filósofa Simone de Beauvoir, conhecida por suas publicações sobre o feminino e suas relações sócio-político-econômicas, além do tema da redação: a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira.

Após tudo isso, as esperadas manifestações tomaram o mundo virtual e o real, em publicações na imprensa e redes sociais, e passeatas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Manifestações em demais capitais estão previstas para as próximas semanas.

Se o tema do Enem obrigou 7 milhões de pessoas pensarem sobre nossa violência cotidiana, qual não foi a surpresa quando se criou uma polêmica sobre a questão com a citação da filósofa. Já conhecidos por discussões e propostas absurdas, os deputados Marco Feliciano e Jair Bolsonaro trouxeram mais opiniões ilógicas sobre uma possível doutrinação do MEC (ou do PT, o que se tornou uma ladainha enfadonha, quando não uma piada), gerando risos de um lado e adeptos do outro.

Se o Enem trouxe um tema recorrente em nossa sociedade como mote para sua redação, quem sabe a partir daí se repense a participação da mulher também enquanto coprotagonista nela. Mas, o que nos parece simples e óbvio – a participação social da mulher em igual condição de renda, educação, respeito, representatividade, poder e segurança – não o é de todo para muita gente e aí, o que o novo berço da democracia – a internet – tem de maravilhoso, traz junto cansaço e desgosto.

Talvez o cerne de algumas questões que envolvam o feminino, o feminismo e o machismo, seja não sermos reduzidas a um útero. Que se entenda corretamente: não é uma desqualificação do órgão na fisiologia da mulher, não estamos negando ou nos opondo à sua função – sequer odiamos a família ou a reprodução de nossa espécie.

O que parece ilógico é a super-relevância simbólica deste órgão na esfera política e social do país. À medida que a mulher perde a autonomia sobre seu corpo, ela se torna refém e escrava de seu sexo como um animal, limitando sua participação na sociedade a reprodutora, ao invés de responder por seu desenvolvimento, qualificação e evolução, junto a seu parceiro.

Mas, o que mais uma vez nos parece óbvio – entendermos a mulher como um ser pensante tal qual o homem e ter garantido o direito sobre si – para outros pode não o ser e por isso a importância do debate.

Para muitos, o que representamos enquanto pensantes é um conjunto de estereótipos: a mulher solteira e triste, a intelectual-comunista, a sem religião, a fascista, a burguesa, a petista (porque a ladainha não tem fim), a entediada.

Até os gays (e possivelmente os transexuais) entraram na seara e, de uma forma inexplicável, o preconceito contra uma ‘minoria’ – considerar o gênero minoria é, no mínimo, estranho – foi expandido para outras. Então, a discussão que instigamos e que agora parece ter algum retorno é boicotada, reduzindo ideias às imagens destorcidas em expressões como as já citadas e outras que retomam o útero, tentando eliminar o cérebro: ‘feticida’, ‘útero-seco’.

O grande paradoxo ou trunfo é que as tentativas de ridicularizar e obstruir a comunicação útil – entendemos ser de interesse democrático o debate das questões sociais – ratificam a necessidade de outros tantos encontros, discussões e manifestações. Talvez assim, com algum estudo e visão, as publicações sobre a sociedade, cultura e comportamento consigam ultrapassar a borda das provocações rasas e promova ideias e reflexões que valham a leitura e uma boa conversa.

Tati Reuter Ferreira

Cineasta

Baiana, mora no Rio há menos de uma década. Cineasta e coordenadora de produção na tv, é crítica e eterna estudante de cinema. Varia entre Beatles e Luiz Gonzaga, escreve no blog Café: extra-forte e no Blah Cultural. Não vive sem café, rede, livros e praia.