Sororidade não paga boleto. Não explore o trabalho de mulheres em nome do feminismo

Existe uma interseccionalidade de opressões e dentro dessa interseccionalidade mulheres podem agir de forma opressora para com outras mulheres. Só que, ao falar de precarizar outras mulheres, não estamos necessariamente falando de mulheres que ocupam um outro status social, como de classe ou raça. Em termos jurídicos sociológicos, o ato de precarizar alguém está estritamente ligado ao mercado de trabalho. Nesse processo, o indivíduo que se percebe precarizado recorrentemente é da base social, racial e de gênero da estrutura socioeconômica, mas… mas isso não impede que mesmo dentro dos grupos socialmente oprimidos, existam minorias precarizando a mão de obra de outras minorias.

No campo do feminismo, vemos uma série de mulheres que publicamente pregam lógicas de empoderamento, mas no campo privado precarizam outras mulheres financeiramente. Afinal, em qualquer outro lugar do mundo, você paga pelos serviços que quer. Porém, por que entre feministas se entende que a suposta “irmandade” é capaz de dar conta das necessidades financeiras? Por que nos movimentos sociais é tão corriqueira a ideia de que o seu engajamento precisa ser revertido em trabalho gratuito, em nome da “causa social”, mesmo que seja nítido que tenha pessoas que cobrem sua boa vontade enquanto ganham em cima dela?

Em vários momentos, percebi que estava praticamente pagando para trabalhar, e ainda sendo tokenizada por ser a “garota negra”. Qual o sentido disso vindo de outras mulheres? Por que é tão complexo perceber que nosso trabalho, nosso tempo, e nossas pesquisas não podem ser sugadas gratuitamente por empresas, por empreendedores, por pessoas que capitalizam em cima disso? Isso tudo é cruel, mas por outras mulheres? Por outras mulheres que são feministas? O que está acontecendo?

Não estou falando aqui de palestrar em escolas ou para movimentos sociais! Estou falando de mulheres feministas que lançam projetos feministas e capitalizam recursos em cima disso, mas que, mesmo assim, não repassam esses recursos para aquelas que são constantemente colocadas no posto de cooperantes. Estou falando de mulheres que optam pelo serviço de outras mulheres, mas que não querem remunerá-las por isso. E claro de uma sucessão de mulheres expondo essa exploração, e ora ora, a grande maioria dessas mulheres exploradas é negra.

Num contexto que se fala tanto de incluir mulheres negras, e até mesmo de rever o próprio racismo. Onde fica esse esforço no momento de compartilhar recursos para pagar pelo TRABALHO dessas mulheres?

 

 

Ninguém aqui está pedindo dinheiro para nada, estamos falando de pagar pelos serviços prestados por outras mulheres. E parar com essa lógica de que “entre irmãs” não deveríamos cobrar e pagar, afinal, é tudo em nome do “bem maior”. Bem maior é mulheres serem pagas corretamente pelo seu trabalho, pois não adianta texto denunciando diferença salarial, se sua empresa “empoderada” continua mantendo as lógicas de exploração para com o trabalho feito por mulheres.

Veja: uma coisa é te oferecerem algo gratuitamente, outra é solicitar um serviço e não querer pagar o preço por isso! Outra coisa, ainda mais diferente, é enganar mulheres para obter benefícios financeiros. E uma pior ainda é vender nossa produção para grandes marcas, ganhar em cima dos projetos e sequer repassar valores mínimos.

Vivemos num contexto social que mulheres já são a base da pirâmide econômica, por isso falar de dinheiro entre feministas é tão importante quanto denunciar as lógicas opressoras estruturais que sustentam a sociedade. Dinheiro, empregos, quanto recebemos por e quanto nos pagam para.

Por que ainda é uma vergonha cobrar pelo nosso trabalho? Entretanto, não é uma vergonha explorarem nosso trabalho?

Não estou falando de vender nosso feminismo, e sim do preço pelo nosso trabalho. Se muitas são publicitárias, escritoras, ilustradoras, estilistas, empreendedoras, trancistas, cozinheiras, mulheres que têm um emprego para além de suas lutas sociais, ao querer trabalhar com essas mulheres em nome das nossas escolhas políticas devemos exercer a lógica de remunerá-las.  

Existe uma série de sites e até mesmo eventos feministas, que dada a organização de muitas feministas liberais, vêm se tornando eventos que envolvem capitalização em cima. Contudo, recorrentemente esse capital sequer é circulado para as mulheres envolvidas.

Veja, você pode até ter um site que se tornou lucrativo, entretanto, dificilmente vejo mulheres pagando outras pelo que produzem. As coisas ainda pioram no que diz respeito a nós, mulheres negras, as pessoas dão a entender que nós deveríamos ficar gratas só por sermos lembradas, enquanto continuam sugando nossa produção e feitos. Tem um outro ponto ainda mais estranho que é solicitar pelo trabalho de uma mulher, sem ter recursos para pagá-lo. Em outros contextos, não procuramos por um serviço e dizemos: ah, pago quando puder. Entre nós, seria lindo se isso funcionasse, mas não podemos nos prender a camaradagem feminina para que mulheres tenham sua vida dignificada, não vivam com dívidas e obtenham o pagamento pelo seu trabalho.

Não pode se tornar corriqueiro solicitar o trabalho de mulheres, se não queremos e não podemos pagar por eles. O feminismo é sobre emancipar, e não sobre aplicar lógicas de exploração corriqueiras nesse sistema para com outras mulheres. Por um tempo tive dificuldade de perceber que até o ato de “dar ideias” para brancos é capitalizado, para nós mulheres, em especial negras, ele é sugado!

Recentemente uma conhecida postou em suas redes sociais como lhe foi pedido produtos seus para divulgação de um trabalho feminista e que, após doação, sequer teve seu nome citado. O ato de sermos “esquecidas” na remuneração e nos créditos, se torna corriqueira entre mulheres feministas, em especial negras. Existe um debate muito grande na ideia de “uma sobe e puxa a outra”, contudo porque as mesmas que usam a torto e a direita essa frase e tantas outras “empoderadas” têm tanta dificuldade de remunerar corretamente os serviço de outras mulheres feministas?

 

 

Vale lembrar que essa perspectiva de camaradagem é apenas uma corruptela de uma lógica sexista e capitalista de exploração. Você se utiliza de uma conexão, seja política ou de identidade, e aufere ganhos e recompensas a partir dela, produzindo uma relação unilateral, um jogo que um só lado ganha. É isso mesmo que o feminismo quer fazer: um jogo onde só um lado ganha? Bem, as estatísticas, casos e relatos já nos lembram, nós, mulheres negras, de que lado desse “joguinho” estamos. Como aprendemos com feminismo negro interseccional: sem uma crítica séria aos sistemas que reproduzem nossas condições de opressão, incluindo lógicas perversas do capitalismo, não há condições de avançarmos nas nossas práticas e críticas.

Acredito que no Brasil as esquerdas, especialmente, aderiram a uma ideia de demonização do dinheiro. Claro que a demonização só vai até aqueles que já não tem recursos, uma série de sites, revistas e eventos da esquerda capitalizam em cima de sua produção, mas sequer pensam em reverter isso para seus “colaboradores”. Muito fácil fazer um discurso revolucionário, quando se mantém estruturalmente o dinheiro na mão dos de sempre. E sabemos muito bem que no nosso contexto econômico não se faz nada sem dinheiro. Então, para aqueles que não são herdeiros, que não tem familiares com recursos para bancar seus sonhos, que vivem recorrentemente fazendo as contas para manter tudo certinho, cobrar não é vergonha. Se ver num lugar de exploração, menos vergonha ainda, é preciso saber entender esse lugar como constantemente sendo visto como o nosso nessa estrutura, por isso nem mesmo nós estamos educados para saber identificar e cobrar.

Nosso trabalho ainda precisa ser remunerado. Nossas vidas não podem ser precarizadas. Nossas lutas não podem ser diminuídas quando aprendemos a dizer:

 

 

A precarização já é constante em nossas vidas, então, ser colocado nesse lugar por outros como nós, em nome do feminismo, não pode ser aceito como prática comum do ativismo.

 

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.