Sua empresa descolada e que adora representatividade contrata negros?

É impressionante, no sentido mais negativo possível, como toda semana um ato racista viraliza nas redes sociais. Ainda estamos na metade do ano e já tivemos aluna negra trancando matrícula da universidade por não aguentar mais o racismo do qual é vítima; cantora criando vídeoclipe com exotificação de negros e depois vindo a público sugerindo que existe racismo contra brancos; advogado negro barrado em boate por parecer um “segurança”; blackface em pleno carnaval no trio elétrico de uma cantora de axé e depois mais blackface num programa de televisão com direito a essa frase dita por uma atriz: “Queria ser ‘negona’, mas só vim com a bunda”.

 

Faltava mais uma marca conhecida reproduzir, novamente, uma estampa com viés racista. Não bastasse a Farm já ter sido criticada pela sua coleção orixás com ausência de negros, apropriação cultural e uso de cores indevidas para com cada orixá, a mesma marca copiou o dito “erro” de uma outra marca, no caso a Maria Filó, e trouxe uma estampa em sua coleção que remetia a escravidão. Coloco “erro” bem entre aspas, pois no fundo se trata de reproduções racistas feitas muitas vezes de forma intencional, para gerar comentários e visibilidade nas redes sociais.

 

 

Em 2016 escrevi o seguinte sobre a estampa da Maria Filó:

 

Quando me deparei com a estampa da Maria Filó, pensei: se fossem judeus em uniformes listrados presos em campos de concentração, isso seria uma estampa?
Acredito que, após a Zara ter feito em 2014 pijamas inspirados nesses uniformes, eu não duvido que sim. Porém, no caso do Holocausto, vejo uma noção histórica e um sentimento de vergonha sobre esse fato bem maior do que sobre a escravidão – ainda que ambos os momentos tenham apenas crueldade, dor, sofrimento, mortes e perseguição. Contudo, as narrativas artísticas sobre a Escravidão tendem a ser muito romantizadas. Vejo isso em novelas e me ofendo muito.

 

A questão é que após a Zara, a crítica a Maria Filó e a própria FARM criticada em várias mídias com sua coleção que propunha homenagear orixás. A FARM conseguiu, mais uma vez, transformar uma narrativa de exploração e sofrimento em uma estampa romantizando banalizando essa realidade. Limitando inclusive qual público ela quer atingir com suas produções.

 

Afinal, eu, uma mulher negra, e tantas outras mulheres negras não nos sentimos felizes em usar uma roupa com a estampa de uma negra escravizada carregando sacos na cabeça com vários outros negros trabalhando por obrigação ao seu redor.

 

O uso romantizado da escravidão que se espalha pelo Brasil a fora com suas estampas e restaurantes chamados “Senzala” são sem dúvida a prova que o Brasil acredita de fato que pessoas africanas tiradas de seus respectivos países e famílias não sofreram tanto assim quando foram jogadas em senzalas, obrigadas a trabalhar e severamente maltratadas e espancadas. Tendo sua humanidade retirada, seus laços afetivos destruídos e a exploração da sua mão de obra se tornando o único motivo para que continuassem vivos. Será que toda essa narrativa não faz os brasileiros assimilarem que a Escravidão é uma vergonha? Como escreveu Renata Felinto, artista plástica, pesquisadora, e professora da Universidade Regional do Cariri, em seu perfil nas redes sociais:

 

No Brasil se cultiva uma memória afetiva da escravidão. São bibelôs, objetos pseudo artísticos, imagens, dentre outros. Amas cuidando de crianças, pessoas em situações de castigos corporais, outras trabalhando compulsoriamente em fazendas, brinquedos (!), tudo o que vi agora à tarde num passeio pelo mercado de Juazeiro do Norte. Mas há restaurantes de luxo, lojas de roupas, produtos de limpeza e alimentos, telenovelas que também reavivam essa atrocidade como se fosse uma doce lembrança, sem um olhar realista e crítico sobre “o que significa ser desterradx e levadx para um lugar totalmente desconhecido para trabalhar sem descanso até a morte”. Um país que não consegue dimensionar essa barbárie e continua apequenando o impacto do racismo em todas as suas estruturas.

 

 

Portanto, no Brasil é capaz de pessoas assistirem filmes como 12 Anos de Escravidão, postarem em suas redes sociais que esse filme é triste e terrível, e almoçar num restaurante chamado Senzala como se as duas coisas não tivessem conexão. Vivemos num contexto que uma estampa com escravizados negros no seu “dia a dia” é considerada mera arte e não uma reafirmação que a dor e sofrimento de negros não importa, como também pode ser comercializada por pessoas brancas. Os recursos continuam sempre entre pessoas brancas, mesmo os recursos do sofrimento de negros, seja na escravidão, seja na reprodução romantizada da escravidão como una memória afetiva nacional. E este é o ponto, quando os recursos vão ser distribuídos mesmo que de forma mínima? Quando nós negros estaremos em empresas como a FARM em cargos de destaque?

 

Ter negros em campanhas fotográficas é fácil pois existe uma série de pessoas negras bonitas e influentes, enviar presentes para influenciadores negros é fácil pois custa pouco e dá muita visibilidade, o difícil mesmo é que as ditas empresas descoladas que querem promover diversidade e inclusão contratem pessoas negras e tirem elas do limbo que significa ser “freela” no contexto nacional, em que não se assegura direitos trabalhistas e ao mesmo tempo se pede um esforço sub-humano para os tidos “microempreendedores”, não à toa essa categoria é repleta de negros e de mulheres. A exploração atual é essa, mulheres e negros totalmente subalternizados no mercado em propostas de empresas que se colocam como “desencanadas” e ‘“descoladas” quando na verdade promovem práticas antigas de exploração. Em uma matéria de 2016 na Carta Capital, se divulgou os seguintes dados do Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2014 aponta que:

 

Assim, homens e mulheres que se declaram negros representam 60,3% de todo o aumento de desemprego gerado entre 2013 e 2014. Saliente-se ainda que, em 2014, o Brasil possuía 2,4 milhões de mulheres negras desempregadas e 1,2 milhão de homens brancos na mesma situação. Apenas 31,3% das mulheres negras ocupadas com 16 anos ou mais, em 2014, possuíam carteira assinada, taxa muito inferior ao percentual de homens, na mesma situação, há uma década. Os homens brancos ainda percebem rendimentos 60% superiores aos das mulheres negras. Nos cargos diretivos, apenas 10,8% ocupam estes cargos.

 

Recentemente a Coca-Cola divulgou em uma matéria fotos do seu núcleo de “diversidade” focado nas questões LGBTS, não tinha negros, não tinha mulheres, não tinha pessoas trans, todos eram homens brancos. Como essa pesquisa aponta, homens brancos já são os mais empregados, os que mais tem acesso a direitos trabalhistas e os que já são maioria nessas empresas. Então qual é a novidade? Diante das críticas a empresa se viu num lugar de incômodo que muitas outras empresas deveriam estar: querem falar de diversidade, querem questionar as amarras do mundo, querem se colocar como diferentes, querem dizer que fogem da norma, e sem mantém na total exclusão no que diz respeito ao acesso e contratação de indivíduos socialmente marginalizados.

 

 

Muito se diz que não existem negros capacitados para esses cargos, uma mentira que é confrontada a partir do momento que cresce o número de empresas especializadas em selecionar negros para altos cargos por serem altamente capacitados para ocupar um lugar de decisão nessas empresas, o que não cresce é o interesse dos ditos meios “descolados”. Interesse esse que tem que ser ampliado ao processo de inserção e capacitação a longo prazo de pessoas negras. Afinal, empresas mais tradicionais muitas vezes se mostram mais diversas que algumas agências de publicidade, pequenas empresas “inovadoras”, escritórios de arquitetura, mídias alternativas. Esses que apresentam uma quantidade de negros quase nula e que seria inexistente, se a mulher da limpeza, o porteiro e o motorista não fosse negros.

 

O absurdo é esse, não se pensa na capacitação a longo prazo, tampouco na busca por empresas como Protagonizo e EmpregueAfro para ter acesso aos profissionais negros, as pessoas querem apenas falar sobre negros e não ter que colocar negros em sua folha de pagamento, mantendo dessa forma a lógica do racismo e da exclusão. Contratar negros é possibilitar a mobilidade social de um indivíduo que faz parte de grupo socialmente oprimido e marginalizado, portanto é a quebra de uma imposição criada pela sociedade racista. Por mais que a representatividade visual seja importante e transformadora, é necessário que ela venha acompanhada sempre das mudanças estruturais nestes territórios e isso dificilmente vemos empresas querendo fazer.

 

Além disso, algumas vagas que surgem explanam que querem negros para tratar das “questões raciais” da empresa. Ou seja, o indivíduo negro ainda só é considerado, caso depois de uma crítica se note que é preciso ter negros para se falar de racismo no espaço. Ainda não consideramos negros de uma forma diversa como indivíduos que nem sempre vão querer tratar das questões raciais em seu emprego diretamente, pois indiretamente a nossa presença por si só já pedagógica.

 

A questão é que empresas precisam ter negros não só para que esses falem de racismo, precisam de negros para que eles possam ter acesso a tudo que é garantido em um emprego com direitos trabalhistas (mesmo que esses tenham sido escamoteados pelo atual governo). Se soma a isso ao fato que a intolerância a indivíduos negros em espaços institucionais ainda é naturalizada enquanto somos apenas um, dois, três, se somos mais de 50% da população o mínimo é que no mercado de trabalho deveríamos estar numa porcentagem muito maior do que realmente estamos na maioria das empresas renomadas. E exatamente por não estarmos, os poucos negros que conseguem quebrar essas barreiras sofrem e muito com o racismo institucional em empresas, que os fazem muitas vezes abandonar seus empregos após sofrer uma série de violências psicológicas. Promover a dita diversidade além de facilitar a vida de pessoas marcadas pelas suas identidades tidas como divergentes da norma branca e masculina, também possibilita espaços de trabalho mais inclusivos e claro, o argumento sempre reproduzido para convencer: diversidade gera lucros.

 

 

Por fim, ainda existem muitas barreiras para se quebrar até o fim do racismo e a inclusão de negros em espaços de trabalho é a principal delas, é parar com os discursos e começar assinando carteiras. Eu quero ver a FARM ao invés de colocar negros servindo em suas estampas, e outros modelos em algumas de suas fotos, contratando estilistas negros, diretores de arte negros, produtores negros e valorizando seu trabalho e criação. Uma coisa não anula a outra, mas sem dúvidas se feitas de forma isolada não possibilitam um real impacto na estrutura racista. A Coca-Cola urgentemente precisa fazer isso para sim ser digna de estampar matérias com o termo “diversidade” em matérias que visam promover seu trabalho de “inclusão” de pautas das ditas minorias.
Recentemente estive num evento de publicitários e não só a plateia era em sua maioria branca, como um dos convidados usou termos como meritocracia para justificar sua ascensão enquanto homem branco no mercado publicitário e o posterior sucesso no “empreendedorismo”, esse homem sempre gozou de espaços de privilégio por ser de uma família com recursos, a ponto de dizer que o seu “diploma não servia para nada”. Claro que não serve, seu gênero, raça e classe indicaram um lugar de poder que nem todos podem ter.

 

E comprovei isso semanas depois quando estive numa grande agência premiada e olhei para todas as salas cheias com cuidado e não tinha negros. Não tinha nenhum negro!

 

É cansativo como esse tipo de discurso se torna corriqueiro na rodinhas de conversas da maioria das empresas que conhecemos e até mesmo admiramos. É cansativo como as empresas continuam procurando o mesmo tipo de ideia, o mesmo tipo de “estampa”, o mesmo tipo de profissional, na mesma universidade, com os mesmos tipos de conversas. Portanto, até quando as empresas vão se colocar como inclusivas quando não conseguem nem sequer quebrar a barreira racista, eugenista de não possuírem um negro no seu quadro de profissionais? Até quando?

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.