This is Brazil: brancos defendem seus privilégios usando negros de pele clara como token

No último domingo, Fabiana Cozza renunciou ao seu papel como protagonista no Musical Dona Ivone Lara. Motivo? Após a produção anunciar sua participação no musical, Fabiana Cozza foi massivamente criticada nas redes sociais, afinal, sua estética não é parecida com a de Dona Ivone Lara, em especial por um motivo: a cor de sua pele. Há quem diga que as críticas vindas de negros sobre a cor da pele os fazem racistas, esquecendo que na nossa estrutura já somos classificados pelo tom da nossa pele e isso quem criou não foi o sujeito negro, tampouco o ativismo negro da atualidade. Sendo bem realista, a internet só está jogando luz para assuntos que sempre foram discutidos.

E isso não é sobre ser mais ou menos negro. Contudo, é fato aos olhos de qualquer um, que Fabiana não se assemelha com Ivone Lara, mas para muitos isso não é uma questão. Afinal, quando Cozza, uma pessoa que é negra de pele mais clara, é chamada para interpretar Dona Ivone Lara, temos quase a terceira peça nacional sobre uma pessoa negra retinta clareada em um ano. Isso realmente não te choca?

Veja, em um ano o teatro brasileiro tentou clarear Dona Ivone Lara. Conseguiu clarear Carolina Maria de Jesus e aplaudiu um Arthur Bispo do Rosário BRANCO. Por quê?

Me parece que é mais fácil entender um negro como gênio, se ele “não for tão negro assim” ou simplesmente, não for negro. Logo, me parece ter sentido que a chamada militância negra esteja com raiva. Não existe outro sentimento possível de ser sentido, quando você vive num país que determinam que inteligência, sagacidade, talento, possuem cor e ela não pode ser aquela evidentemente negra. Existe uma violência não perceptível para todos no ato de uma possível Ivone Lara mais clara, se sucedendo a uma Carolina Maria de Jesus e um Arthur Bispo do Rosário. Essa violência em linha do tempo é relembrada e sobreposta, assim que a foto de Cozza é posta ao lado da de Ivone Lara.

Nós estamos sendo adoecidos pelo racismo, fato. E nossos gatilhos são acionados constantemente.

Então, a raiva me soa legítima demais se tratando desse assunto como um sentimento que humaniza e põe para fora o que está nos consumindo pois, mais uma vez, estão nos dizendo que: negros geniais precisam ser camuflados para sua genialidade ser legitimada. Não é uma raiva de Cozza, talvez uma frustração ao ver que ela, uma mulher negra, ativista, desconsidera contextos e assume essa narrativa de clareamento sem questionar o uso que está sendo feito dela e de sua identidade para manutenção da estrutura que coletivamente e não individualmente nos é nociva. Sinto que a raiva é da repetição da mesma narrativa e não das pessoas em si, e personificar serve para vilanizar as críticas negras e não para assimilá-las e compreendê-las.

Só que, além de raiva, sinto que existe um sentimento de medo desse hábito racista continuar sendo perpetuado, pois amanhã pode ser uma Sueli Carneiro, um Abdias Nascimento, uma Lélia Gonzalez, uma Ruth de Souza representados como brancos ou mais claros do que eram. Pois é isso que o Brasil faz: ele clareia para camuflar. Essa é a perspectiva da Democracia Racial, e ela é fortemente aplicada nas peças teatrais brasileiras, homenagens televisivas e até mesmo nas fotografias, de pessoas negras tidas como grandes contribuidores para nossa cultura, intelectualidade e sociedade.

Então sim, devemos ter medo, pois o teatro brasileiro que se julga tão transgressor, é sem dúvidas um dos palcos principais do fortalecimento da lógica racista que estruturou esse país num suposto nome da “arte”. Então, nada nos garante que daqui uns anos não seja qualquer um de nós que terá sua cor relegada a mero detalhe, quando ela foi determinante para sua vivência pessoal. No país em que o racismo é de marca, as pessoas fingem que ele é de origem quando convém.

Então, sinceramente não duvido vindo de um país que admite uma novela que se passa em um estado de maioria negra, ter apenas protagonistas brancos, que até mesmo Abdias Nascimento não possa ser daqui uns anos interpretado por alguém branco, ou alguém negro de pele tão clara, que passe pelo crivo da chamada passabilidade branca dentro do contexto nacional. Por isso, vamos e precisamos falar, mesmo que muitas pessoas não vejam esse como sendo um debate afetivo, ele é, sem dúvidas, necessário.

Nós, negros, não somos todos iguais nem esteticamente, muito menos na forma de agir e pensar. Entretanto, eu mesma sou recorrentemente marcada na foto de outras pessoas negras e tenho que pedir para ser desmarcada, ou recebo aqueles comentários vindos de amigos: nossa, fulana é tão parecida com você. E quando me deparo com a fulana, nossa única semelhança é que somos negras, de resto nada. Então, por mais que não sejamos iguais, as pessoas nos colocam como uma unidade heterogênea estética e de pensamento. Essa ideia de unidade, também pode ser aplicada na narrativa de Cozza como Ivone Lara.

Quando colocam Fabiana Cozza para interpretar Ivone Lara, me soa um reforço disso, mesmo que tenha sido falado de talento e da sua ligação com a família, é nítido que não cogitaram que seria necessário parecer com Ivone Lara, contanto que fosse negra. Afinal, em outros contextos e peças teatrais, se cobra uma semelhança mínima com o sujeito, mas no caso de negros recorrentemente qualquer um está bom. E destaco que não entro na discussão se ela é talentosa, se tinha ligação com a família etc. Não é sobre isso, estou discutindo formas do racismo se manifestando no Brasil e como essa ideia de que nós, negros, somos todos iguais, somos todos amigos, todos nos conhecemos, é reforçada diariamente até no ato de que qualquer negro pode representar qualquer outro negro. Afinal, não é tudo a mesma coisa?

Do outro lado, me soa interessante que assim como é claro que se pessoas negras não serviram para serem Paquitas, dificilmente serviriam para ser a Xuxa num musical, solo, filme etc. Eu tenho muitas dúvidas sobre algumas escolhas que parecem não intencionais, mas são. Já disse em vários momentos que ninguém quer colocar um branco, ou negro de pele clara com passabilidade, para representar o Fernandinho Beira Mar ou o Maníaco da Cantareira, contudo me parece muito claro que querem dar um jeito de dizer que qualquer um pode ser Machado de Assis, Carolina Maria de Jesus, Arthur Bispo do Rosário etc…

E se eu, como negra questionar isso, vou receber uma aula de como o teatro funciona. Eu realmente tenho dificuldade para entender como, sendo as regras dentro do campo teatral diferentes, não ver com facilidade ascensão individual de figuras negras, como vejo de brancos, pois me soa mesmo de longe do campo teatral, que se brancos podem ser tudo, negros só podem dar vida aqueles papéis que depois do nome vêm entre parênteses escrito: personagem negro. Ou protagonizar, ganhar para produzir, peças que vão debater racismo, pois dificilmente alguns são lembrados em outros contextos. Então…

Então, ainda não estamos com poder para sermos os senhores da memória nacional, pois definir a memória é sobre poder, e ainda não o temos, mas podemos registrar. Que fique registrado. Vou continuar atualizando para cada nova peça com pessoa negras sendo protagonizadas por pessoas brancas ou negras de pele clara que não condizem com sua estética de origem, apenas como forma de camuflar suas identidades, para que, quando me disserem que existe raiva nos argumentos, seja fácil explicar o motivo.

1- Bispo do Rosário:

Ano passado foi anunciada pelo Sesc Bom Retiro o monólogo de João Miguel sobre Arthur Bispo do Rosário, em que o próprio João Miguel além de produzir a peça, também era o principal e único ator no palco.  A questão é que esse é João Miguel:

 

 

E esse aqui é o Arthur Bispo do Rosário:

 

 

Arthur Bispo do Rosário é uma figura que gera interesse em diversas pessoas, alguns o entendem como louco, outros como gênio, o fato é que seu trabalho artístico é brilhante, singular e sua narrativa sem dúvidas foi demarcada e determinada por sua cor. Não tem como fugir dessa análise, sinceramente, ainda mais para quem faz parte do debate antimanicomial, é fato que gênero e raça eram fatores determinantes, assim como racismo é uma violência tão grande que alcoolismo, depressão e até mesmo outras doenças mentais, não podem não ser relacionados a ser vítima dessa estrutura. Portanto, quando um Bispo do Rosário surge interpretado por uma pessoa branca, você pode ver como arte, homenagem e até mesmo como nada demais, afinal, que lindo pensar que João Miguel estudou por 20 anos essa pessoa.

Mas ele precisava ser o Bispo do Rosário? Na entrevista dada para o site do Sesc por João Miguel ele diz: “Por muitos anos, os manicômios eram os lugares para onde a sociedade mandava aqueles que não se encaixavam”. Não se encaixar, como já disse acima, está relacionado com raça, gênero e, dependendo do indivíduo, classe.  Depois, ele diz que não é uma biografia, e sim o entendimento dele sobre Bispo. Mas acho interessante que ele diz: “Minha premissa é dar voz ao Bispo”. Penso, dentro da minha ignorância, como é possível dar voz a alguém negro, que viveu num contexto racista, sem considerar sua raça na interpretação desse sujeito?

Veja, o projeto de João Miguel é de 2001, ele abriu portas para ele fazer filmes, televisão e séries. Sua genialidade interpretando o genial Bispo do Rosário lhe concedeu ocupar outros espaços, que não vejo alguns intérpretes de outros gênios negros recebendo. Se procurar a biografia de João Miguel na própria wikipédia é fato, que depois de 2001, quando fez Bispo pela primeira vez, o ator fez filmes e novelas. Um marco na sua carreira, que em 2017 poderia ganhar uma nova roupagem, uma que ele cedesse espaço para que outras pessoas pudessem protagonizar.

 

2- Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus, mulher, negra, catadora de papel e que se tornou um marco da literatura nacional ao escrever um diário que foi publicado como: Quarto de Despejo. Ganhando sucesso nacional e internacional. Carolina Maria de Jesus foi interpretada ano passado por Andréia Ribeiro, essa é a Andréia:

 

 

Essa é ela na peça:

 

 

E essa é a Carolina:

 

 

Sabe, eu me sinto um tanto quanto chocada em relação a Carolina pois pela obra dela, é fato que ela reafirmava sua identidade enquanto negra. Ela fala da pele preta dela, ela fala da realidade dela, como uma pessoa que admira Carolina pode usar um jogo de luz e achar que isso resolve a questão?

Andréia também se diz uma pessoa negra de pele clara, usou diversos argumentos, apelou até para Eduardo Suplicy que, em pleno 20 de novembro, usou uma foto dos pais de Andreia Ribeiro para dizer que se eles eram negros, ela também era, logo tinha o aval para ser Carolina. Claro, um homem branco dando um aval, nada de novo. Mas é interessante que os pais dela sendo negros de pele clara, ela sendo negra de pele clara, sequer teve ouvidos para entender o que estava posto numa discussão sobre colorismo e determinadas possibilidades que alguns sujeitos possuem.

Por fim, esse caso me parece interligado, não só por ter sido denunciado em novembro de 2017, algo bem recente ainda, com o atual debate sobre Fabiana Cozza.

 

3- Fabiana Cozza

Foi anunciada como Ivone Lara na fase adulta no musical com estreia para o segundo semestre de 2018, usou como argumento para sua escolha ser ligada à família e a própria Ivone Lara quando viva. Além do fato de ser uma mulher também negra mesmo sem ter a pele do mesmo tom que Ivone Lara. Essa é a Cozza:

 

 

Essa é Dona Ivone Lara:

 

 

Não acredito que preciso dizer mais sobre esse caso, ele já foi o assunto de grande parte deste texto, contou com a  renúncia de Cozza num fato que me soa inédito dado o motivo, mas que não garante que não terei mais exemplos para esse texto que vou continuar enviando exemplos, conforme a estrutura racista continuar fortalecendo que a genialidade de pessoas negras seja clareada.

O que eu entendo vendo esses três casos, e as acusações que ativistas negros são burros e agressivos, é que ESTE É O BRASIL. Um país de maioria negra, que se diz orgulhoso da contribuição de negros para sua história social e cultural, mas que mostra diariamente pelas escolhas de representação e até mesmo de quem vai estar vivo ou não, que ser negro está longe de ser um ideal. Somos seres tortos e errantes, e a branquitude que nos divide quando escolhe alguns como token para nos dizer isso. Então, é importante ter lado, mesmo que esse lado não agrade os privilegiados deste país, com certeza esse ainda é nosso papel.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.