Uma mulher traída não é “menos” feminista, tampouco menos “empoderada”, ela é humana.

Desde que comecei a assistir The Good Wife e me encantei por Alicia Florrick, venho pensando sobre como a sua narrativa começa pelo choque de uma traição e a quebra de um ideal familiar/afetivo, que fez essa mulher ocupar outros espaços, fazer outras escolhas, lidar com essas escolhas, suas consequências, e além disso se priorizar em relação a sua sexualidade, profissão e suas relações. Logo, Alicia é uma personagem muito complexa e passa longe de uma figura feminina passiva, ela fez de um processo violento que expôs sua vida e integridade, o estopim para retomada do controle da própria vida e emancipação financeira. Se existem Alicias na vida real? Eu não duvido, acho mesmo que muitas mulheres lidam com traições de formas distintas. Não podemos definir qual seria a reação esperada de uma mulher, numa sociedade em que somos tantas e partimos de lugares e vivências tão diferentes. É fato que o patriarcado impõe uma lógica que deveríamos nos submeter e ser submissas, contudo é possível sem subordinação estarmos decidas a manter relações mesmo após infidelidade?

 

Acredito que é possível, e que mulheres que optam por isso não precisam ser apontadas e taxadas como incapazes. Então foi devido ver The Good Wife, que comecei a pensar em algo que vem me incomodando a muito tempo diante da forma como em geral lidamos com mulheres que foram traídas. Já escrevi algumas vezes sobre traição, e acredito que a traição masculina pode ser entendida dentro de um contexto patriarcal como uma forma de demonstração de poder, logo é fato que existe um viés machista por detrás de vários desses comportamentos. Peter Florrick, marido de Alicia Florrick, é um exemplo desse homem poderoso que demonstra seu poder não só nos cargos que almeja, mas também na maneira que se relaciona com mulheres. Diante disso, Alicia não é o problema, assim como nenhuma mulher deveria ser culpabilizada e responsabilizada pelas condutas individuais de seus parceiros afetivos. Então quando pessoas questionam, A TODO MOMENTO, Alicia Florrick por ela ter “perdoado” de certa forma seu marido, o que está acontecendo senão culpabilização?

 

Já vi isso acontecer em vários casos, a pessoa, em especial mulheres, que optam por continuar com seus parceiros homens, mulheres o que for, depois de uma traição, são tratadas como FRACAS. Mulheres fracas que precisam ser alertadas, afinal caso isso se repita será por culpa DELAS, que não tomaram a atitude “esperada”, que era por fim a relação. Seres humanos são complexos em seus desejos, atitudes, pressões, não podemos esperar algo de uma relação que não fazemos parte, essas expectativas não nos cabem. Se uma pessoa, em especial uma mulher, consciente do seu lugar de gênero e da situação optou em continuar essa relação mesmo depois de uma quebra de um acordo, não cabe terceiros indignação sobre suas escolhas.

 

Beyoncé no Coachella

 

Isso realmente me incomoda na série, pois me remete a como Beyoncé vem a todo momento sendo lembrada do que aconteceu quando foi traída pelo seu atual parceiro Jay-Z, depois dela mesma falar sobre isso em suas músicas, e inclusive deixar claro que optou por continuar a relação focando na sua saúde mental e familiar, ao fazer terapia e seu parceiro também. Mesmo assim muitas pessoas que se dizem fãs e admiradoras de seu trabalho continuam mantendo essa história viva trazendo sempre para o público esse tema de forma pejorativa. O que não faz nenhum SENTIDO, como uma pessoa pode acreditar que trazer à tona um assunto de mágoa é algum tipo de cuidado com o outro?

 

Entendo que existem mulheres vivendo relacionamentos abusivos, e que muitos de nós próximos a elas, queremos de alguma forma agir e alertar a esses comportamentos. Apontar algumas condutas e até traições do outro envolvido, seriam formas de alertar para isso. Contudo é fato que apenas os envolvidos podem agir, e até mesmo entender como se sentem plenamente diante de tais situações. No que diz respeito a traição, é urgente que as pessoas reflitam se uma mulher optar após a descoberta de traição permanecer na relação, ela não precisa ficar sendo ferida com constantes indiretas e ataques que zombam da traição em si. Se você se preocupa com alguém, tente manter essa pessoa o mais próximo possível até para garantir cuidados com sua integridade física e psicológica. Invariavelmente as escolhas que essa mulher faz, dizem respeito a apenas ela, caso isso não esteja colocando sua integridade física e psicológica em risco.

 

Usei o caso de Alicia Florrick pois ela é um exemplo, mesmo sendo uma personagem, de como uma traição não impede uma mulher de ser emancipada e confiante diante do seu lugar de gênero, a escolha de ficar num relacionamento diz respeito a essa mulher, e ela não precisa ficar sendo remoída enquanto não ser aquela que você acha que deveria acontecer. Beyoncé optou por manter sua relação, os motivos são apenas dela, as consequências, algumas pequenas se tornam públicas, outras também só dizem respeito aos envolvidos. O que é preciso deixar claro, é que Beyoncé não é menos feminista, como ela mesma se define, tampouco um exemplo menor para outras mulheres, a partir do momento que fez essa escolha. O processo de se sentir emancipada e empoderada em relação a si e o seu lugar perante a sociedade, não se anulam quando se faz escolhas que não condizem com o que muitos acreditam ser o ideal, até por estarmos num contexto que se coloca muitos comportamentos humanos dentro de um binômio simplista de bom ou mau.

 

Não estou defendendo pessoas que ferem outras quebrando acordos pré estabelecidos, eu mesma acredito que não seria tão aberta a permanecer numa relação caso me sinta vulnerável após uma quebra de confiança. Entretanto, quero enquanto mulher e feminista, deixar claro que mulheres não são menos “poderosas”, e nem sei se essa é a melhor palavra, por optarem e acreditarem que seus relacionamentos devem continuar depois disso. Essas mulheres precisam ser respeitadas! Quando isso fica sendo trazido sempre em memes, piadas e até comparações esdrúxulas de como algumas mulheres “lindas” são traídas, tudo isso é ridículo e só reforça como mulheres se tornam alvos constantes mesmos daquilo que não fazem.

 

Por favor, pensem sobre isso. E parem de humilhar mulheres.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.