You: O que torna difícil identificar um STALKER?

Série “You”.

 

Esse texto contém spoilers, por isso não leia caso não tenha assistido a série You, Gossip Girl ou A Incrível Jéssica James.

 

Desde que a série “You” estreou na Netflix, alguns conhecidos meus queriam saber o que eu tinha achado da narrativa já que sou uma feminista, e depois de assistir só posso dizer que ADOREI. “You” cumpre o que se propõe, é uma série que mostra o cotidiano e o ponto de vista de um stalker, no caso um homem violento, agressivo e assassino. Veja, nem todo stalker necessariamente será um assassino, mas todo stalker é abusivo, logo agente de violência. Controlar, vigiar e cercear a vida de alguém é uma violência, mesmo que não resulte em dano físico. Por isso “You” ao exacerbar a violência, deixa ainda mais claro que é uma violência! Então se você ainda tem alguma dúvida, quero que fique muito claro que “You” é sobre violência e não sobre amor, mas se você confundiu as coisas não tem problema. Infelizmente, foi plantado na nossa cabeça que amor e abuso são sinônimos. Por isso “You” é importante ao mostrar que da amizade ao namoro, podemos e somos abusados.

 

E por a série se tratar da narrativa e ponto de vista do agressor, é evidente que ele justifica seus atos e tenta seduzir o telespectador para que entremos no seu universo e assim, passemos a ser empáticos a ele. E isso também acontece na vida real, tanto que mesmo alguns criminosos sociopatas geram curiosidade e passam a ter relacionamentos, mesmo após seus crimes revelados. As pessoas são no fundo seduzidas pela narrativa de agressores, quando a sociedade também justifica, em especial de homens agressores, suas condutas como sendo motivadas pelas ações da vítima, ainda mais quando são mulheres.

 

Ahhh pobre homem que violentou e agrediu sua parceira, ele apenas não era bem tratado dentro de casa pela mulher, se fosse eu isso não aconteceria.”

 

Parece um pensamento absurdo, porém cerceia o pensamentos de muitas de nós. A narrativa do conto de fadas vende tanto a naturalização do abuso como sinal de amor, quanto a idéia que a “mulher ideal” é capaz de consertar o príncipe escondido nas atitudes de “sapo”. Por isso muitas de nós passamos por cima dos sinais e fatos de violência, e quando vemos já estamos envolvidas numa rede que sair requer muito força e apoio. Contudo na série  “You”, para telespectador “passar pano” das atitudes de Joe (Penn Badgley), é necessário ignorar vários dos atos criminosos, e é esse o ponto trunfo da série, ela reforça extravasando o comportamento dele, mostrando sem devaneios como é um sequestrador, invasor e assassino cruel, uma mente conturbada, doentia e vítima de uma série de abusos, que comete tantos outros com naturalidade.

 

Logo a série evidentemente não romantiza a relação de Joe e Beck, ela apenas retrata o quão violento tudo isso se deu, mesmo partindo do ponto de vista dele, o agressor. Por isso quando algumas pessoas me disseram que a série romantiza abuso, eu realmente acho que não estamos acostumados com narrativas que partem do agressor e tendemos a ver elas como verdades absolutas, mesmo que vários autores já tenham usado esse trunfo exatamente para evidenciar quanto isso parte de uma perspectiva desse sujeito e não é a realidade absoluta. Sendo assim, uma perspectiva que ao contar sobre seu comportamento mostra como o agressor busca empatia pelos atos que sabe que são errados. Lolita é um livro que segue essa forma de retratar uma história, na qual a todo momento Humbert tenta justificar seus comportamentos e dizer que sua principal vítima, mesmo sendo menor de idade, concordava com o que ele queria para que de alguma forma ganhe nossa empatia. Assim como em Dom Casmurro, Bentinho se mostra totalmente convicto de algo, escrevendo para que outros acreditem em seu ponto de vista.

 

Nós estamos sendo manipulados e seduzidos pela perspectiva daqueles que fizeram vítimas, logo não são narrativas óbvias, mas seus desfechos já elucidam quem foi a vítima e quem foi agressor mesmo naquela perspectiva.

 

Porém, além disso “You” gera confusão ao tratar de um tema tão naturalizado em relacionamentos: PERSEGUIÇÃO. Veja, perseguir para saber onde o outro está, controlar o celular do parceiro, seguir para saber o que outro faz, querer saber onde estava e com quem, são atitudes que muitos consideram normais em relacionamentos, a obsessão é tida como sinônimo de amor, só que quando mostrada de forma evidente e acentuada como em “You” fica claro que não, não é amor, é assustador. O problema é que essas ações são MUITO naturalizadas nas próprias produções midiáticas, veja bem, a própria Netflix produziu o filme: A incrível Jessica James. E sobre esse filme escrevi neste mesmo site um texto sobre o perigo do stalking, já que nessa produção o comportamento de ficar vigiando a casa da ex escondido no lixo, é tratado em tom de humor. Até mesmo o ato de pedir para alguém ver o instagram do seu ex, para te dizer o que ele está fazendo, é colocado como algo “engraçadinho”, e mais uma vez eu tenho que dizer: não, não é.

 

Li textos que diziam ser um filme feminista com retratado do cotidiano. O cotidiano que nos ensina que a obsessão pelo outro é demonstração de afeto? Precisamos nos livrar da ideia que os outros são coisas que podemos controlar. Mais do que isso, precisamos parar de achar normal e até mesmo engraçado o assédio para com quem nos relacionamos. Mas A Incrível Jéssica James está longe de ser a pior narrativa nesse sentido. Afinal… parece que Penn Badgley não está interpretando seu primeiro stalker em “You”, se algumas pessoas estão achando seu Joe romântico, mesmo que tenha muito mais gente assustada e criticando quem romantiza essa narrativa, afinal ele invade casas e mata pessoas. O seu personagem de maior destaque até esse, o Dan em Gossip Girl, foi totalmente idolatrado e amado, mesmo que ele fosse a tal “garota do blog”. Veja bem, o enredo de Gossip Girl é sobre como a vida de jovens de realidades distintas retratadas num blog de um anônimo que sabe tudo que eles fazem e como fazem, em especial sobre uma delas: Serena Van Der Woodsen.

 

 

Serena tem sua intimidade totalmente invadida e exposta por essa “garota do blog” desconhecida que nessa espécie de blog de fofoca, vigia e controla sua vida e se sente no direito de fazer isso. O ABSURDO, é que a série termina dizendo que essa pessoa na verdade é Dan, o homem com quem Serena passou a série toda tendo um relacionamento e que é retratado como seu “príncipe”. Afinal, o que uma menina rica cheia de problemas precisa é de um garoto pobre e atencioso, né? NÃO. O que a gente precisa urgentemente é que parem de achar que um homem que persegue e expõe uma mulher faz isso por amor, e que questões de classe justificariam isso. A única justificativa é que ele é machista. Simples.

É engraçado demais que o mesmo ator que ajudou a perpetuar com um dos seus personagens que controle é sinal de amor para toda uma geração, agora retrata a quebra dessa farsa. “You” é bom para se romper ideais românticos que transformam condutas de violência em sinais de amor, ao mostrar os perigos disso e como essas histórias podem acabar. Acho que o único problema talvez seja pessoas não associarem aquelas situações que mostram sequestros e assassinatos, com o parceiro que te obriga a dar o acesso das suas redes sociais para saber com quem você conversa. Tem pessoas que acham os comportamentos de Joe muito “loucos”, outras que acham que Dan de Gossip Girl agiu de forma “normal”, no fundo independente do nível da perseguição e controle, nós mulheres acabamos sendo as principais vítimas de uma sociedade machista que entende stalker como um homem apaixonado. Por isso é difícil identificar, porque é normal, normal demais dentro do machismo cotidiano.

 

Nós precisamos de relacionamentos anormais se a normalidade é essa.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.