A capitalização em cima das mortes de pessoas negras

Já são mais de 100 dias da morte da vereadora Marielle Franco, que foi executada de forma violenta no dia 14 de março deste ano.

Esse assassinato foi altamente denunciado pelas mídias, por ativistas e figuras públicas no Brasil e no mundo, por ser engajada nas pautas de direitos humanos, uma vereadora entre as mais votadas no Rio de Janeiro e uma ativista negra conhecida por sua militância feminista, LGBT, negra, favelada etc.

Entretanto, depois da morte de Marielle se sucedeu uma série de notícias falsas sobre sua vida.

Parecia que não contentes em ver essa mulher negra executada de forma violenta, uma parcela da sociedade não aceitou a mídia decorrente desse fato que, por si só, é assustador e mostra a falência do Estado, e resolveu criar uma série de notícias falsas sobre a história de vida de Marielle, fazendo com que sua família em pleno luto tivesse que sair em sua defesa.

Até esse ponto essa história já é lamentável e absurda, entretanto, parece que se tratando da vida de pessoas negras, nada é tão simples assim.

Agora, alguns meses depois da sua morte, que ainda não foi solucionada pela polícia, surgiram produtos que, numa suposta lógica de denúncia, fazem uso do seu nome, e consequentemente do que ela representava. A pergunta que fica é: isso realmente é eficaz?

Um tênis com os dizeres Marielle Presente foram customizados. Segundo Emicida, ele é consequência de uma ação em que a Nike pediu para uma série de artistas customizarem seus produtos.

O tênis em questão teria sido criado por Alexandre Órion e fez parte do desfile “A Rua e NOIZ” desfile que marcou a collab da LAB com C&A. O tênis abriu motivos para uma série de debates sobre se, de fato, esse tipo de “denúncia” séria efetiva, e culminou na descoberta do hambúrguer Marielle Franco.

Com o argumento que se trata de uma homenagem, a hamburgueria Vegans 2 Go foi chamada de oportunista e altamente criticada por pessoas, em especial negras, nas redes sociais.

 

Para mim, enquanto feminista negra, não estou aqui para dizer o que é certo ou errado, mas é fato que mesmo que as pessoas entendam que seja um viés de denúncia, o capitalismo se apropria das mazelas mais dolorosas e realidades mais violentas, com a finalidade de capitalizar em cima disso.

 

Eu mesma já me vi usando uma camisa com a imagem de Frida Kahlo sem ao menos cogitar que essa representação massiva, apagava pontos relevantes da sua história enquanto artista, mulher vítima de um relacionamento abusivo.

Condensam a imagem de Frida numa imagem, que não nos permite refletir sobre tudo o que ela significava, apenas achar que ao consumir uma camiseta com sua foto, nos fará estar compactuando com tudo que ela acreditava ou era.

Transformado, assim, seu viés ideológico e político em apenas produtos, assim como já aconteceu com uma série de “mártires” que têm sua humanidade e próprio trabalho apagado em nome da apropriação feita pelo capital.

 

 

Parece um lugar de conforto esse que nos faz por meio do consumo, dizer que temos responsabilidade e estamos envolvidos com um causa relevante para a sociedade atual.

Paralelo a isso, o Brasil nos mostra o quão tratar temas importantes com certa superficialidade nos faz penar, ao mesmo tempo que a internet denunciava o “hambúrguer Marielle Franco”, o site Mundo Negro denunciava um motel com o nome e temática em seus quartos de: senzala.

Em pleno país que mata um jovem negro a cada 23 minutos, com histórico de quase 400 anos de escravidão, e que uma ativista negra que se opunha a tudo isso foi duramente assassinada, vivemos um contexto que transformou a escravidão em algo passível de ser lucrativo, quartos com nomes como Escrava, fazem parte do pacote que vai fechando com chave de ouro a realidade mesquinha do Brasil que tem lanchonete Senzala, motel Senzala, restaurante Senzala e agora hambúrguer Marielle Franco.

Estamos, sem dúvidas, sobre a época em que as mortes negras não só nos chocam, elas se transformam em algo rentáveis. Nada mais colonial e lucrativo que isso.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.