Quando se é mulher, é preciso coragem para ser você mesma.

Julianna Margulies como Alicia Florrick no piloto de The Good Wife , 2009, 2010, 2011, 2012, 2013, 2014 e no último episódio.

 

Quando escrito para mulheres, o protagonismo é geralmente concedido numa perspectiva angelical, pois se entende que é preciso mostrar nossa “pureza e delicadeza”, algo intrínseco à definição de feminilidade num contexto patriarcal. Recentemente, tramas estão tentando mudar essa representação – a própria nova novela da Rede Globo, Amor de Mãe, traz um roteiro que vem com uma narrativa mais atual. E entre tantas coisas, humaniza mulheres mostrando suas inúmeras camadas para além de uma perfeição cristã. Somos ambiciosas, desconfiadas, inconsequentes, egocêntricas, imaturas – tudo isso sem vilania –, e portanto, humanas. 

 

A série The Good Wife nos apresenta essa humanidade sendo destaque a partir de suas personagens femininas, que evidentemente possuem mais nuances que os demais personagens e nos conduzem para vários dramas éticos e cotidianos. A própria atriz Christine Baranski, que interpreta a advogada Diane Lockhart, destaca esse como um ponto positivo do seriado:

 

“As mulheres em The Good Wife não são vítimas ou megeras umas com as outras. São adultas que vivem sob uma moral complexa, inseridas em um mundo no qual há muita ambiguidade moral e é difícil ver claramente o que é certo ou errado.” 

 

 

Eu já escrevi sobre Alicia Florrick, acredito que ela é uma das personagens mais incríveis que já vi e que mais apresenta essas ambiguidades descritas por Baranski. Alicia está longe de ser uma mocinha intocável, até porque para ser protagonista, não é necessário ser bela, recatada e do lar. Por isso, em sete temporadas de The Good Wife acompanhamos essa mulher numa transformação constante, tanto pessoal quanto profissional. Suas roupas mudam, sua expressão facial e corporal mudam, seu comportamento diante das ações de outras pessoas vai se alterando junto com sua visão de mundo. 

 

É muito importante refletir o que queremos ser e o que nos é permitido ser enquanto mulheres. Alicia por anos foi uma mulher apagada pelo próprio casamento, ignorada por um marido que a desvaloriza, traída, menosprezada e ausente da própria carreira em nome da maternidade e amor. Num salto depois da destruição dessa vida “ideal”, ela passa a se reconstruir como uma mulher segura, que arriscou uma carreira política, que reconstruiu sua vida como advogada, mesmo depois de anos, que mudou sua história para ela ser protagonista e não uma sombra na vida de outra pessoa. Uma mulher que vai amadurecendo, endurecendo e até se tornando desprezível em alguns pontos. E tudo bem! Alicia não tenta ser perfeita, apenas tenta ser ela mesma. 

 

E a série que trabalha na identificação dessas mudanças, também nos brinda com críticas, muitas vezes sutis, de como o machismo atua. Afinal, um homem envolvido em escândalos sexuais, como Peter Florrick, consegue vencer uma eleição concorrendo com mulheres “ficha-limpa”, com a mesma facilidade que desenha para si o lugar de vítima de uma situação que ele mesmo criou. Podendo assim se reinventar, assumindo outro papel na sua própria narrativa com apoio da sociedade. É esse privilégio que nós mulheres ainda não possuímos. Mudar para nós é sempre um drama! Terminar algo, refletir sobre nosso sucesso ou mesmo falhas, é sempre uma culpa. As culpas que permeiam Alicia, não permeiam o marido Peter Florrick, que sequer se esforça de fato pela sua família e os demais, ele está ali para si, e acredita que todos devem fazer o mesmo: entender ele como centro da questão.

 

É simbólico que quanto mais somos bombardeados com imagens, com a possibilidade de acompanhar a vida de pessoas por inúmeras redes sociais, perdemos mais a noção das nossas próprias vidas. Só que quando somos mulheres, talvez a noção sobre nosso lugar sequer já tenha amadurecido. Estamos sempre tentando não incomodar, ser o melhor de nós sem aparecer, e agir dentro do que esperam. Muitas vezes as expectativas em não frustrar desconhecidos é tamanha, que nos vemos num emaranhado de responsabilidade que nem nos cabe. Some isso ao fato que na atualidade tudo é imediato, instantâneo, como se o tempo fosse curto demais para refletir e nos permitir aos poucos nos compreender. Alicia  passa por anos como uma dona de casa e mulher exemplar, o que não anula a possibilidade de mudar, e se apenas uma advogada, que cria os filhos sozinha e se envolve em casos complexos de clientes muitas vezes moralmente indefensáveis. Essa mudança só vêm depois de um choque, mas também da retomada do controle sobre sua própria vida.

 

Venho fazendo análise por mais de um ano, e esses dias em meio a uma conversa com minha psicanalista sobre uma dúvida em relação a minha vida, ela me disse para tentar e caso eu não gostasse, desistir. Fiquei pensando como sempre me coloco numa situação que eu não posso não gostar, eu tenho que sempre me entregar, ceder, me esforçar mais que todos e me adaptar. Não é sobre ser inconsequente a provocação dela, era sobre como eu me frustrava em relação a escolhas que não são definitivas, pois para mim enquanto mulher só é desenhando o drama da mocinha que precisa aguentar tudo para ser feliz no fim. É muito difícil se permitir dizer não para o que não nos representa principalmente nessa narrativa que nos faz vítima e não protagonista das nossas próprias vidas. Contudo preciso e nós, mulheres em geral, precisamos nos permitir ter a coragem de ser quem somos. 

 

Num mundo em que mulheres são tratadas como seres incompletos, também somos determinadas pelo que os outros fazem com nós, pensam de nós, definem por nós. Escrever é muito mais fácil do que agir. The Good Wife foi uma série importante pra mim nesse sentido, porque ela mostra que não é porque uma mulher passou por algo horrível em sua vida que isso decretou sua história. Por muito tempo, as minhas próprias escolhas foram definidas a partir de como me sentia diante das opressões que me vitimizam. Por muito tempo, dei abertura para pessoas que sequer me conhecem de verdade me definirem. Por muito tempo, eu fui lidando com um lugar de desconforto com medo da mudança. Mudanças são demoradas, a ruptura não necessariamente, e nós somos mais do que as pessoas enxergam.

 

Que venham as mudanças! Que venham novas perspectivas! Que venham novas formas de agir e pensar! Que venham mais histórias sobre Alicias, Dianes, e Stephanies. De todas nós, mulheres humanas.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.