O namorado que ESTUPRA, o marido que MATA

Essas semanas que passaram foram marcadas pelas denúncias de violência vinda de homens, acusações que ganharam as mídias por eles serem famosos ou por sua atrocidade no ato de violência.

Infelizmente nada de novo em relação a esse país que a taxa de feminicídio é a quinta maior do mundo, segundo a ONU, além dos 135 estupros por dia. Então, mesmo que não me surpreenda, me choca ver como infelizmente as mortes de mulheres e a violência sexual façam parte do nosso cotidiano, tanto quanto os agressores que são maridos, namorados, pais, amigos, pessoas geralmente próximas.

Isso posto, se depois do absurdo que foi o milionário Wesley Safadão pedindo revisão de pensão, com direito a criação de uma tabela com gastos fracionados e mesquinhos para o próprio filho; o youtuber Everson Zoio foi o “famoso” da vez sendo denunciado publicamente por se autoincriminar em um vídeo ao relatar um estupro que ele teria cometido:

 

 

Sim, agora, além de sermos vítimas de estupros, nós, mulheres, temos que presenciar homens relatando essas situações tenebrosas e corriqueiras em meio aos risos. Everson Zoio num programa com outros youtubers, disse que após negativa da namorada, enquanto ela dormia, a penetrou sem seu consentimento. Parece absurdo que há exatamente dois anos isso tenha sido ouvido, publicado e compartilhado por uma série de pessoas que sequer cogitou que NÃO é NORMAL nem ENGRAÇADO: porque PENETRAR alguém sem CONSENTIMENTO é apenas CRIME.

Porém, depois de revelar esse ato nojento e criminoso, Everson Zoio fez um vídeo dizendo que era apenas uma brincadeira de mau gosto, uma de suas ex-namoradas que não parece ser a do ato em questão, saiu em sua defesa e clamou por um jornalismo justo, e Felipe Neto, outro youtuber conhecido, se indignou com uma matéria que denunciava youtubers, dizendo que não dava para generalizar.

Parece que a piada não tem fim, não é mesmo? E é uma piada de mau gosto com as vidas de mulheres, que são ceifadas cotidianamente enquanto alguns chegam a reclamar do “politicamente correto” em sua defesa.

Impressionante que poucos, ou quase ninguém que estava envolvido com esse vídeo seja criando, visualizando ou justificando, cogitou que independentemente do que Everson Zoio provará na justiça, se é um fato verídico ou não, o que ELE mesmo RELATOU, o vídeo que circulou por anos, pode ter incentivado uma série de violências sexuais, afinal, Zoio é um youtuber conhecido que conta com um canal com mais de 10 milhões de inscritos e alta popularidade.

Assustador esse fato passar batido, porém explicável, num país que não discute publicamente como deveria o chamado ESTUPRO MARITAL, pois já se condicionou a acreditar que se um homem está numa relação afetiva com uma mulher, ele tem total poder de decidir sobre o desejo sexual dela.

 

 

Já se pode com convicção afirmar que os maridos podem estuprar suas parceiras, já que o estupro basicamente consiste na manutenção de ato libidinoso ou carnal com alguém sem seu consentimento, e consentimento não é inerente a estar num relacionamento.

Existem várias formas de naturalização do estupro e uma das mais comuns é a dentro dos próprios relacionamentos, só que infelizmente uma das mais difíceis de ser denunciada.

É claro, que a narrativa que nos foi dada de que dentro de relacionamentos tudo se pode em nome do amor colabora para isso, é esse amor abusivo perpassado pela manutenção da dominação masculina e lógica patriarcal que nos faz, muitas vezes, enquanto mulheres, não nos ver como vítimas das situações, não só as vítimas de namorados, maridos, familiares violentos e abusadores, como também somos vítimas de um Estado e sociedade omissos para com nossas vidas.

Depois de saírem em defesa da integridade do garoto que fez “apenas uma brincadeira”, o brasileiro se chocou com o assassinato de Tatiana Spitzner, que foi por mais de 20 minutos agredida, perseguida, e friamente morta pelo parceiro, que chegou a limpar as gotas do seu sangue derramadas no elevador, depois de manusear de volta para o apartamento o corpo de Tatiane, que caiu fugindo ou foi empurrada por ele da varanda de seu apartamento.

Além disso, Tatiana Spitzner foi severamente negligenciada por quem ouviu seus gritos e simplesmente não agiu nem para chamar a polícia em sua defesa. Parece que o Brasil avançou quando passamos a ter a Lei Maria da Penha e depois a Lei do Feminicídio, entretanto, as nossas condutas sociais não avançam ao mesmo passo que nossa legislação.

Para nós, mulheres, o avanço mais significativo seja nas mídias, câmeras, mensagens de celulares, vídeos gravados pelo próprio autor, tudo isso hoje são ferramentas que podem facilitar denúncias para que se chegue à solução de alguns casos com provas factíveis. Entretanto, nada nos garante que essas provas sejam usadas enquanto ainda estivermos vivas.

Parece que para nós, nos basta denunciar, esperar o próximo caso que será chamado de piada, mesmo que se trate de um assunto sério, ver o próximo homem “de bem” que espanca e mata, chorar, pedir para que não sejamos as próximas, e pressionar para que o namorado que estupra, o marido que mata não sejam mais parte do nosso cotidiano e das manchetes de jornal quando já estamos mortas.

É desanimador os tempos atuais, ainda mais quando se é uma mulher.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.